A FEIJOADA
“Oi, dona Dalva, tá aí? “
“Entra Marlene, tô aqui na cozinha, filha, vem cá.”
“Nossa, que cheiro ma-ra-vi-lho-so!! lá de fora a gente já sente... ah, dona Dalva, feijoada igual da senhora...hum, nunca comi!”
Dalva ria, enquanto rodava entre a pia e o fogão, cortando lingüiça, carne seca, paio, lombo e outras coisas mais pra fazer a sua ‘famosa feijoada’.
“Senta aí, filha...olha se quiser tem café fresquinho na garrafa, fiz ainda agorinha, sabe, né, gosto de tomar um cafezinho enquanto cozinho.Vai, pega uma caneca e se serve...faz cerimônia não, menina...”
“Faço nada, a senhora sabe. Vou aceitar café sim, mas vim aqui saber se precisa de ajuda, posso fazer alguma coisa? Quer que corte a couve, descasque laranja?...” – falava enquanto pegava o café.
“Ah, filha, se quiser descascar as laranjas te agradeço, porque ô coisa chata ficar descascando essas danadas... – e Dalva dava risada – adoro fazer feijoada, nem me importo cortar todas as carnes, mas as laranjas... aff me tira do sério...”
Marlene pegou uma bacia, um facão afiado, sentou num banco e começou a descascar as laranjas... ali os aromas se misturavam, a feijoada, as laranjas o café e as duas tagarelavam, falando de tudo e de todos.
“Ixxi, Marlene, cê viu o cabelo de Kelly? que é aquilo, meu Deus, a menina tá com cabelo rosa? como é que pode sair com aquilo na rua e achar bonito?” e dava risada
“Olha, dona Dalva, agora é moda, tem cabelo de toda cor.”
Interrompendo, Dalva completou – “sei disso filha, afinal ando na rua, vejo as meninas daqui da comunidade... mas aquela menina ficou foi muito feia,,, branquela daquele jeito, com aquele cabelo rosa que chega doer nos olhos...” e dava risada – “podia ter escolhido outra cor...”
“É, mas vai ver gostou... fazer o quê? – dando uma pausa, continuou – e Robson, tá gostando do quartel? outro dia vi ele saindo, todo de farda, tá bonito que ele só...”
“Ah meu menino tá feliz, Marlene, graças ao meu senhor São Jorge, acho que vai fazer carreira lá dentro – levantava os olhos e as mãos pro céu – assim já fica com emprego, né filha, as coisas tão difíceis pra arranjar trabalho... não lembra você, mais de 3 meses parada...moça boa, trabalhadeira...”
“Nem me lembra desse perrengue... olha, tava quase desistindo e pegando qualquer faxina que aparecesse.. como é que ia deixar Tainá Elisabete sem comida? mas graças a Deus, agora tá tudo bem...”
“Filha, o pai dela não te ajuda em nada? nem pra comprar um pouco de comida? – dando uma pausa, continuou – olha não tô querendo me meter não, Deus o livre, cê sabe que não sou disso, mas fico vexada com cara dura de Wandislei, morando aqui, passa todo dia na frente da tua casa, nem entrar pra ver a filha, nem ajuda...”
“Oh, dona Dalva, quer saber? prefiro assim...com as companhias que ele passou a ter, por aqui...a senhora sabe... vive na birosca de Juninho, enchendo a cara...isso sem falar em outras coisas que prefiro nem lembrar...”
Dalva continuava atarefada com a feijoada, enquanto Marlene tomava o café e descascava laranja... e a conversa rolava solta
“Sabe, dona Dalva, se soubesse que ele ia mudar tanto, Deus que me perdoe, mas não tinha tido filho com ele não... parece um praga, de repente ele virou a cabeça, ficou outra pessoa... agora vive metido em briga, confusão,não sei como ainda nâo foi preso...”
“Aff, menina, vira essa boca pra lá, é pai da tua filha...”
“Não tô desejando, não senhora, só tô falando que com tantas que ele apronta, chega admirar não ter sido preso... eu lá ia querer pai de filha minha na cadeia? que é isso?”
Nisso, entra Robson, fardado... ”mãe, senhora tá aí? – chegando na cozinha vê Dalva e Marlene – oi Marlene, tudo bem? tá aí ajudando a mãe?” – enquanto dava um beijo na mãe e a agarrava pela cintura – “melhor mãe do mundo!! melhor feijoada do mundo!” e rodava com a mãe pela cozinha minúscula...
“Menino, me larga... qualquer dia desses cê me joga no chão, com essa mania de ficar me rodopiando...”
“Jogo nada, dona Dalva... seguro forte... já viu filho jogar mãe no chão? - deu uma pausa – bom, vou tomar um banho, dar uma descansada que quero tá prontinho pra encarar esse feijão como merece...”
Robson sai da cozinha e volta logo depois...”mãe, comprou bebida? porque se não comprou, vou no Juninho, depois do banho...”
“Preocupa não, filho, tá tudo arrumado... vai tomar seu banho sossegado e descansa...”.- quando Robson saiu, Dalva disse pra Marlene –“filho de ouro, sabe que nunca me deu trabalho na escola, nem com amizade... uma benção... acho que é o pai dele que tá lá de cima olhando por nós...” – levantou os olhos e se benzeu.
Cada uma com suas tarefas, ouviram quando Robson saiu do banheiro e foi pro quarto, se vestir.
“Ô filha, acabou de descascar?”
“Ainda não...a senhora comprou muita laranja, parece que vem um batalhão...”
“Ah filha, se vem batalhão não sei porque não convidei, mas sempre aparece mais um e não gosto que falte comida... cê sabe, tem gente que já sabe dessa minha feijoada, de Cosme e Damião...promessa antiga, tava grávida do meu Robson... gravidez complicada, me peguei com os dois meninos... e prometi que fazia festa todo ano... aí resolvi fazer feijoada sempre no sábado antes do dia deles...mas é em intenção a eles, tá aí, meu Robson...e sempre aparece gente...” e voltou a rir
“É famosa essa feijoada... também, no capricho...”
Robson entrou na cozinha, já de bermuda, sem camisa e foi pro quintal, dizendo – “mãe, vou ver isopor com bebida, pra ver se tá tudo certo...”
“Eita que meu filho tá cheiroso! nossa, mais cheiroso que a feijoada...” Dalva e Marlene começaram a rir...
De repente a porta da frente da casa abriu com violência e os gritos ecoaram pela casa
“Marlene, sua cachorra, cadê você? aparece, vagabunda...” os berros de Wandislei explodiam na sala... Marlene e Dalva correram pra sala e deram de cara com um Wandislei totalmente bêbado ( naquela hora do dia, já bêbado...), que balançava no meio da sala e berrava
“Sua cachorra, ordinária! então tá namorando Claudinho, é? tá de esfregação com ele, vagabunda? mãe de filha minha não fica de agarramento com homem não!” –os olhos completamente turvados pelo álcool, avançou pra cima de Marlene, despejando socos e pontapés na moça que tentava se defender, sem conseguir.
Dalva começou a gritar, pedindo socorro e mandando que o bêbado parasse... mas ele nem ouvia, alucinado pela bebida e berrava
“Caolho me contou, lá no Juninho, que te viu beijando Claudinho... tá pensando o quê? isso não vai ficá assim não...te cubro de porrada, vagabunda e depois passo ele na ponta da faca...” – gritava espumando de raiva e batia em Marlene...
Robson veio correndo do quintal, com a barulheira e tentou segurar o bêbado, se atracando com ele
“Pára, Wandislei, tá louco, cara... vai tomar um banho, esfriar essa cabeça...” – enquanto afastava o alucinado de Marlene
Mas a força do bêbado triplicou e ele começou a agredir Robson, enquanto berrava
“Não vem defender vagabunda não! não é assunto teu,,, é mulher minha... ou cê também tá comendo ela?” – e soco e pontapé voando pra todo lado...
“Pára com isso, já te disse...não quero te bater...vai embora, toma teu rumo...”
Nessas alturas já tinha gente entrando pela porta, pra ajudar a segurar o bêbado enlouquecido de ciúmes... mas antes que alguém pudesse fazer qualquer coisa, Wandislei virou corpo, pegou o facão que Marlene usou pra descascar as laranjas e cravou fundo no pescoço de Robson.
A gritaria na casa, de repente, parou... silêncio total... só se via Robson com a mão no pescoço, segurando a faca, cambaleando pela casa, os olhos arregalados, como não acreditando no que tinha acontecido...
Esse cambalear foi acompanhado por todos num silêncio de terror que foi interrompido pelo berro alucinado de Dalva “ NÃO!!!!! MEU FILHO, NÃO!” e se atirou pra ele, amparando e deitando no chão, coberta pelo sangue do filho que encharcava tudo.
Robson morreu 5 minutos depois, ainda no colo da mãe que uivava de dor e horror... naquela casa só se ouviam soluços baixos das pessoas e os gritos alucinados e lancinantes de Dalva, perdendo seu filho no dia em que pagava promessa feita pra que ele nascesse...
Um comentário:
Olá Simone!
Tenho andado afstada destes meios, e assim vai ser ainda nos próximos tempos-agora vou fazer uma longa viagem , mas no meu regresso tentarei ser algo mais asídua.Goste desta história, muito triste, que deixa um sabor amargo de injustiça. Muito bem escrito , como era de esperar de você
Um beijo e até breve!
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