Olá,

Seja muito bem vindo (a) !

São textos simples, mas saídos da emoção...

Quero muito saber sua opinião - compartilhe comigo e com os outros.

Um grande e caloroso abraço

Simone,


A luz que brilha nos meus olhos vem da minha mente, fervilhante de idéias, pensamentos, sonhos...através de meus dedos e mãos trago vida a esse turbilhão, colocando em palavras o que insiste em gritar dentro de mim...

Cada movimento das árvores bailando ao vento traz encanto e paz ao meu ser; cada pássaro que ouço da minha janela traz música à minha alma...Assim sou eu, dando valor a cada pequena coisa, tornando-a valiosa e importante!



Simone































sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

TRANSFORMAÇÕES

Durante séculos as mulheres foram submissas aos homens e à sociedade controlada por eles que impunha valores severos a elas. Assim, passaram da fase de serem arrastadas pelos cabelos para a fase menos explícita ( mas não menos perigosa ) de serem obrigadas a comportamentos ‘adequados, apropriados’ – entenda-se recatados, para serem escolhidas pelos homens para um casamento, via de regra, sem amor, insatisfatório, de abandono e rejeição.
Mas durante essa fase em que as mulheres estavam no que eu chamo de ‘prateleiras de supermercado’, à espera de serem escolhidas, além da humilhação  da exposição, da ansiedade se seriam ou não escolhidas, ainda impunham a elas outros instrumentos de tortura, como o famigerado espartilho, as infames anáguas de crinolina...
O espartilho servia para afinar a cintura, tornando o corpo feminino à semelhança de um carretel, ressaltando seios e ancas, as únicas partes do corpo da mulher que sempre atraíam os olhares masculinos.
Então, a mulher prendia a respiração, se submetia a ser espremida, triturada naquela peça com vários cadarços que eram apertados ao máximo, ainda que para isso, a mulher mal pudesse respirar, se mexer ou sentar O objetivo final – ser escolhida – devia ser alcançado de qualquer forma...
Mas, felizmente, transformações acontecem! E as mulheres mudaram internamente, mudaram seu comportamento e as regras sociais também foram turbilhonadas por elas !
Hoje o espartilho infame foi substituído pelo corselet, os cadarços de antes por delicadas tiras de seda, peças que são usadas à vista e não mais debaixo de camadas e camadas de roupas.
O espartilho era uma forma de amordaçar a mulher, cerceá-la, colocá-la sob freios... esse cerceamento, essa prisão física nada mais era que uma exteriorização da prisão social imposta à mulher.
Hoje a mulher usa o corselet – o objetivo é o mesmo: provocar, seduzir o homem, mas, ao contrário de seu parente medieval, o corselet é vestido por vontade da mulher, as tiras de seda são atadas por ela, não mais para sufocar e prender a respiração, mas amarradas de forma a serem retiradas de forma sensual, exploradora, despudorada.
Hoje a mulher manda no seu corpo, comanda o corselet e o manuseia como melhor e mais sensualmente lhe convém. Com ele, a mulher está livre para viver plenamente sua sensualidade, dar asas à imaginação e criatividade. Hoje, ela não está mais na ‘prateleira’ – hoje ela seduz, conquista, escolhe e, o mais importante, desfruta da vida e seus prazeres. Soltou as  amarras físicas, emocionais, sexuais, sociais.
Hoje não mais aquele ser submisso – cujo melhor retrato era o espartilho -, aquele ser calado, diminuto, sem opinião, sem quereres, sem presença. Hoje, não mais...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

idas e vindas

IDAS E VINDAS

A chegada dele é pressentida muito antes  mesmo que apareça. As montanhas retiram o xale da noite que usaram pra se agasalhar e ficam lá, à espera que ele chegue. E ele vem, em todo seu esplendor de luz. No princípio, tal namorado iniciante, vai explorando cada pedaço, começando com um calor morno, agradável.
Depois vai explodindo, paixão intensa, queimando cada fenda, cada recanto, amante insaciável, não se contentando com uma ou algumas, mas alcançando todas, sem distinção de localidade, idade ou belezura.
Enquanto ele aparece tímido, as árvores da praça acordam, sacodem os galhos, abanam as folhas pra espantarem os restos do sono da noite. E se preparam pra fazer o que sabem de melhor – fornecer sombra. Os bancos ali embaixo receberam e recebem visitantes, alguns sentam aos pés, na terra; sonhos são partilhados, mágoas são trocadas, paixões relembradas e renovadas.
A  praça começa a tomar vida – a padaria abre as portas, logo cedo, com o cheiro inebriante da primeira fornada de pão. Chegam os clientes ... mulheres apressadas em voltar pra casa – têm que levar menino pra escola; os sonolentos também chegam, bocejando, tomam no balcão o primeiro café do dia que disputa com o pão o melhor aroma matinal. Sempre se encontra tempo pra dois dedos de conversa inconseqüente, meio sonada, só mesmo pra afastar os últimos sinais do sono que teima em ficar.
Depois chegam os jogadores de dama, xadrez e sueca – mesmos caminhos de vida, sonhos alcançados, ou não, lembranças compartilhadas de uma época comum.
Após almoço, vem aquela modorna, o sol brilhando forte, exigente no seu calor e esplendor, amante voraz que não se contenta mais só com as montanhas – vem aquecendo, queimando, tudo e todos.
Mas como amante voraz, não fica muito tempo. Depois de se saciar com os recantos das montanhas, de aquecer tudo e todos, logo se cansa, volúvel. Vai  em busca de novos amores, novas paixões, pra espalhar, derramar seu calor, sua queimação, não escolhendo montanhas, pradarias, vilas ou cidades. Apenas cumprindo seu caminho que só é atrapalhado quando algumas nuvens, leves ou densas, ousam encobrir seu fogo de amor e paixão.
Mas como tudo passa, ele sabe que as nuvens também seguirão seu caminho e ele continuará soberano e quente chegando a cada manhã, sabendo que as montanhas vão se despir do xale da noite, pra, em plenitude de nudez, recebê-lo, sem pejo, sem pudor ou ciúmes por serem tantas as amantes.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

CONTRASTES

A rua era arborizada, filtrando o sol,  onde mães orgulhosas empurravam os carrinhos de seus pimpolhos. Era uma rua calma, com jornaleiro conhecido na esquina, onde quase todos passavam pra um dedo de prosa. Contador de casos, sabia de tudo que se passava na rua: quem tinha novo namorado, quem mudou de babá, quem trocou de carro...e fazia questão de contar com mínimos detalhes ( desconfio que aumentava algumas coisas, mas era tão engraçado que valia a pena engolir seus pequenos excessos só pelo prazer da conversa).
Adiante ficava a padaria. Ninguém sabia o nome. Todo dia “vou à padaria” e já se sabia a qual estava se referindo. Servia o melhor café das redondezas, pelando, forte, encorpado. Ponto de encontro obrigatório (tal qual o jornaleiro ) dos aposentados que sentavam nas duas ou três mesinhas minúsculas e, com a desculpa de tomar um café, ficavam a manhã inteira falando mal do governo, da violência, das dificuldades da vida.
 Mas viviam rindo. De quê, nunca entendi. Acho que o simples fato de estarem ali, juntos, desfrutando a companhia um do outro, já os fazia felizes.
Rua agradável, com pipoqueiro na outra esquina, prédios suntuosos com porteiros que mais pareciam lordes ingleses em seus uniformes.
E assim escoava o dia, caía a tarde morna, quando os cachorros da redondeza se misturavam às crianças nos passeios vespertinos. O sol se pondo lentamente, quase preguiçoso, como se não quisesse se afastar daquele lugar.
E vinha a noite. E tudo mudava... porque ali, no meio daquela calma quase indolente, funcionava uma casa noturna, daquelas que fervem de gente bonita, sarada, fazendo fila na porta.
A partir das onze da noite, parecia uma  outra  rua, fervilhante, efervescente. Uma algazarra tomava conta do lugar, com jovens vestidos com as roupas mais extravagantes, meninas se equilibrando em imensos saltos, rapazes tatuados, todos queimados, cheirando à juventude. Os olhos brilhavam ante a expectiva do que ( ou quem ) iriam encontrar lá dentro...
“Será que aquele gato que a gente viu hoje na praia vai vir?” perguntava uma loura com cabelo de chapinha o qual alisava ainda mais, incessantemente...
“Sei lá, se não vier, a gente logo descola alguém. Somos poderosas, meu bem... Ih! já viu a roupa da outra? não é a mesma que ela estava na festa da semana passada?”
Olhos ávidos, gulosos, procurando, procurando...
Lá dentro a luz piscava sem parar, o som altíssimo impedia qualquer conversa – aliás, conversar pra quê ? ninguém ia lá pra conversar! Ia-se pra ver, ser vista ( muito ! ), descolar um (a) gato (a), ficar e sair de lá sem nem saber o nome de quem passou a noite inteira beijando e alisando...
Antes das seis da manhã, os últimos fregueses saíam. As portas fechavam e, lá pelas sete, a rua retomava sua calmaria, com os carrinhos de bebê, os cachorros, os aposentados na padaria e o jornaleiro.

SÓ UM

Um não
Dá nó
Na voz
Sem ter
Dó com
Meu fim
Vem pra mim
Vou pra ti
Um sim
Traz paz
No ar
Ao meu ser
Mão na mão
Ir ou vir
Sim ou não
Eu ou nós.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

RECOMEÇOS

Quem disser que nunca recomeçou na vida, ou está morto ou mentindo. Porque recomeçar faz parte da vida de todos nós. Uns encaram melhor que os outros.
Existem aqueles que precisam mergulhar fundo, bem fundo, ficar lá por um tempo enorme, se consumindo, se remoendo, avaliando, analisando, purgando todas as mágoas, as tensões e emoções.
Esses fazem uma subida lenta, muito lenta, mas a cada centímetro subido vão se fortalecendo e, quando afinal ressurgem, estão inteiros, plenos, prontos para enfrentar o que der e vier, mesmo sabendo que vão cair outras vezes.
Outros caem, fingem não se importar, abanam a poeira do joelho, dão um sorriso sem graça e vão em frente. Ou pelo menos pensam que vão. Porque deixaram uma parte de si naquele tombo e, na pressa de não permitir que os outros percebam, nem se dão conta que não tiveram tempo de juntar os pedacinhos espalhados pelo chão.
Mal sabem como esses pedacinhos vão fazer falta, porque a cada novo tombo, mais pedacinhos vão sendo deixados pra trás e, lá na frente, se vê despedaçado, tentando colar, de qualquer jeito, as poucas partes que restaram.
Para esses, o recomeço é dificílimo, porque além de não terem muito o que juntar, ainda tentam esconder dos outros as parcas tentativas de recomeçar. Continuam vivendo como se aquelas interrupções não passassem de meros episódios desprovidos de importância.
E um último grupo é daqueles que caem, se levantam e continuam como se nada tivesse acontecido. E, na verdade, para eles, nada aconteceu, porque nada os atinge, pelo simples fato que não se entregam a nada, a ninguém. Não sofrem (?), mas tampouco desfrutam de alegrias.
Para esses, não existe recomeço, simplesmente porque nunca houve um mero começo de vida. São ausentes de sentimentos, ocos de emoções. Geralmente, em situações limites, são sempre as “vítimas”- são pessoas que não assumem nada do que dizem ou fazem, por total incapacidade de “dar” algo – porque nada têm a dar a ninguém. E assim, passam pela vida, sem recomeçar, porque nunca sequer começaram...
E você? Como recomeça?
SANFONEIRO DESCALÇO

Quando era criança, passava minhas férias na fazenda de uma tia (postiça, porque na verdade, era amiga da minha mãe). Era uma farra porque éramos mais de 22 crianças e jovens, com idades entre 5 e 18 anos.Fazíamos de tudo naquela fazenda, desde andar a cavalo, horas a fio, a banho de rio, sentar na ponte, à noite, cantando desafinados qualquer música que cismássemos.
Mas existiam noites especiais, em que minha tia resolvia promover “saraus’. Não eram saraus como os que tanto conhecemos, com música de câmara, cantores líricos...
Na verdade, chamar de “sarau” era um exagero, porque todos se sentavam em roda na varanda gigantesca e lá vinham o violeiro, o sanfoneiro e alguém com um pandeiro – pronto, estava montado o “sarau” ! E tome música  sertaneja...o coral, mais desafinado, impossível, mas o que valia, mesmo, era a reunião, a alegria, a descontração.
E o que mais me chamava atenção era o sanfoneiro. Nelson era seu nome. Cego de um olho, analfabeto, mas tocava uma sanfona de respeito. Era irmão do capataz ( todos os “músicos” eram peões da fazenda ) e nunca, mas nunca mesmo, coloquei os olhos nele durante o dia! Devia ficar perdido naquele mundaréu de terra, cuidando do gado, das plantações – sei lá...
Mas o que mais fascinava nele eram os pés. Com a idade indefinida peculiar dos interioranos, esse sanfoneiro cego, analfabeto, jamais havia calçado um único sapato em toda sua vida!
Eu ficava quase hipnotizada, olhando aqueles pés que mais pareciam cascos de animais, calejados de tanto andar no mato, seja chuva, seja sol, ano após ano.
Falava pouco, quase nada, limitando-se, quando muito, a dar um meio sorriso.
Um dia me aproximei dele, depois do “sarau” e perguntei por que ele nunca usava sapato. Ele meio tímido, me olhando de lado, com o olho bom, me deu a resposta que refletia toda sua simplicidade: “não sei”...
E em todas as férias em que voltava à fazenda, lá estava ele, sanfoneando, descalço. Até que num ano, quando voltei, soube que havia morrido e a família, em sinal de respeito, enterrou-o... de sapatos...

VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ ?
Todos têm medo de alguma coisa. Claro que barata e morte são campeões de audiência. Um dia, do nada, resolvi sair perguntando às pessoas do quê elas tinham mais medo... Surpresas mil! Algumas respostas bem óbvias: ratos, cobras, altura, morcego, solidão, escuro ( esse dito meio no sussurro... ). Outras nem tão óbvias: gatos ( sempre quem já foi arranhado por um ), jacaré ( mesmo que só tenha visto em cinema ou TV ), mar, avião, bala perdida ( hoje muito em voga! )...
Mas houve uma resposta, em especial, que além de me surpreender me fez pensar sobre várias coisas.
Uma amiga, daquelas supostamente corajosas, que se arriscam em aventuras meio impensáveis, de arrepiar, me deu a seguinte resposta:
“Eu tenho medo de não ter medo...” Como assim? Uma pessoa ultra - arrojada, cujo comportamento não combinava com medo, de repente, se sai com essa inesperada resposta: medo de não ter medo?
Comecei a conversar com ela para tentar entender o sentido da resposta. E ela me disse que ter medo era o que a mantinha viva, em todas as aventuras, porque a cada momento o medo estava presente, muito forte e servia de limites para que ela não se aventurasse além dos limites seguros.
O medo era seu ‘freio’ e, impulsiva como ela era, tinha certeza que o dia que perdesse o medo, provavelmente, suas aventuras não teriam mais tantas possibilidades de serem bem sucedidas, como até agora.
Confesso que diante dessa afirmação, todos os outros ‘medos’ me pareceram tão comuns, banais! Porque tratava-se de um medo que preservava a própria vida. Era, enfim, o medo que ela sentia que a mantinha viva.

ALMA ADOECE?
As duas amigas chegaram e sentaram à uma mesa ao lado da minha.  Ambas muito arrumadas, carregando sacolas de lojas conhecidíssimas pelos produtos caros. Na verdade, não sentaram, simplesmente. Desabaram nas cadeiras, o que me chamou atenção, porque não combinava com o exterior de nenhuma delas.
De imediato percebi o nervosismo de uma delas que, antes mesmo de pegar o cardápio para um lanche rápido de final de tarde, disparou para amiga:
“Alma morre? ou pelo menos adoece?”
A outra, pega de surpresa, olhou pra ela, parou e ficou pensando.
“Como assim? Se morre é porque o corpo morreu, não é? Não vejo diferente. Agora se alma adoece...sei lá! que tipo de  pergunta é essa? de onde você tirou isso? “
“Não sei. Fico me perguntando se alma adoece com os sofrimentos que a gente passa...porque o corpo logo apresenta algum sintoma, né?...dor de cabeça, gastrite...essas coisas... mas e a  alma? Será que ela adoece e também apresenta sintomas, só que a gente não vê? “
Nesse momento veio a garçonete e interrompeu as indagações/aflições da moça. Depois de examinarem o cardápio, decidiram por algo light (óbvio...) e quando ficaram sozinhas, imaginei se a conversa retomaria de onde parou. Estava curiosíssima pela resposta da amiga e já me perguntava se ‘alma adoece’...
A amiga começou a falar de uma festa que ia naquela semana, na roupa que ia usar – enfim aqueles assuntos que mulheres não resistem!. Mas a outra ficou ali parada, olhando pra ela, como se não ouvisse nada, não tivesse qualquer interesse na festa ou na roupa. E contra-atacou:
“Você não me respondeu! você acha que alma adoece?”
“Já disse que não sei... nunca ouvi nada a respeito! nem li! e vem você, de repente, e quer uma resposta sobre uma coisa que nunca sequer passou pela minha cabeça...”
“Pois olha, tenho pensado muito e o mais próximo que cheguei é que alma adoece, sim, e o sintoma que ela nos mostra é quando perdemos a esperança...”
Fiquei sentada, tomando meu lanche e deglutindo aquela conclusão e, de uma forma um tanto acanhada, concordei com a minha mais nova desconhecida de infância: a alma adoece quando perdemos a esperança.
Não importa em quê; morta a esperança significa que nossa alma está doente? Aquele lanche da tarde me fez ver algo que nunca passara pela minha cabeça...

domingo, 16 de janeiro de 2011

PROP

estático cálice
sintomático mérito
histórica ética
única pétala
último êxito
vértice perimétrico
próximo cântico
nítida câmera
escândalo hipócrita
romântico adúltero
céleres neófitos
caótico módulo
sétimo capítulo
mínimas vísceras
diáfanos prêmios
lúgubres cárceres
tépidas cópulas
lunático cérebro
ávidos êxtases
mórbidos pêsames
límpidos cântaros
péfido pássaro
rústica vinícula
notívaga ênfase
tépido ápice
utópico bêbado
cálidas nádegas
anônima lágrima
ótimos péssimos
péssimo ótimo

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

PESQUISA DE BOTEQUIM
A garota entrou no boteco, passeou os olhos nas pessoas e, de imediato, identificou os dois. “São eles – são perfeitos”. Passos decididos, chegou  até a mesa dos dois e soltou um  “oi, tudo bem? posso sentar com vocês um pouco?”  e sem esperar resposta, puxou uma cadeira e sentou.
Os dois olharam pra ela por trás de uma nuvem de álcool, cuja prova irrefutável eram as mais de dez garrafas de cerveja esvaziadas que estavam na mesa.
Garotona, cabelão, queimada de praia, faixa de 20 e poucos anos, com uma blusa que deixava o umbigo à mostra, mochilão e um baita sorriso escancarado.
Os bêbados ficaram esperando o que vinha a seguir. “Sabe o que é? eu tô fazendo uma pesquisa pra faculdade e achei legal ouvir algumas pessoas comuns assim que nem vocês...”
“Pessoas comuns, o cacete! a gente tá aqui quieto, curtindo nossas louras geladas e vem você com esse papo de pesquisa e ainda chama a gente de ‘pessoas comuns’? qualé? “
“Não, olha só, é que eu sou estudante de Sociologia e tô fazendo a pesquisa pra saber como as pessoas vêem a atual situação política no mundo! É só isso. É rapidinho, demora nada, são só umas perguntinhas...”
O outro bêbado, calado até agora, disparou; “Manda aí – escreve: ‘o mundo tá uma merda!’ M-E-R-D-A ( soletrando ). Escreveu? pronto; agora cê já sabe a nossa opinião – toma teu rumo”
“Não, pêra aí...eu preciso fazer umas perguntas e aí vocês respondem...”
‘Meu amigo já respondeu – ‘tá uma merda’!  qual foi a parte da palavra MERDA que você não entendeu? tá fazendo faculdade mermo?  tem certeza? porque olha só ( nessa hora ele puxou a cadeira mais pra perto dela e o bafo de álcool virou uma segunda pele pra ela ) – até eu que sou uma pessoa comum ( foi disso que cê chamou a gente...) entendi a resposta dele!!  M-E-R-D-A! cacete!! cê vai na aula, garota? queimada desse jeito....sei não...”
“Mirmã, negócio seguinte: são 5 da tarde, a gente já tá de porre e pretende continuar...
vai procurar mais gente comum pra tu encher o saco porque o nosso já explodiu. A gente tá aqui discutindo o jogo de domingo, se vai ter churrasco depois e tu vem com essas besteira de situação no mundo??
Acorda menina!! presta atenção: (dedo apontado na cara dela ) desde que o mundo é mundo, todas as noites, em todas as mesas de botequim, no mundo todo ( ele escancarou os braços... e tome bafo de álcool...), todos os problemas e as situações no mundo são resolvidos. Se toca. Essa porcaria de pesquisa vai dar em nada. Vai ser mais uma porra de montoeira de besteira só pra encher lingüiça... ah! e o nosso saco, também...
Faz assim: esquece essa merda de pesquisa, fica aqui, toma umas geladas com a gente e ajuda  a resolver se vai ou não vai ter churrasco... porque  no fundo, mirmã, isso é o que interessa...o mundo?? que se exploda!! Tem futebol, tem cerveja, tem churrasco??  então tá beleza! cai na  real...”
A garota olhou os dois, deu uma risada e soltou: “sabedoria de botequim é melhor que qualquer sala de aula! vamos à cerveja! agora me fala direito dessa história do churrasco... vai rolar onde..?”
A CHUVA
Ela entrou no bar, correndo da chuva. Encharcada até os ossos, ali era mais um refúgio que propriamente um lugar pra tomar um café. Na parede lá nos fundos havia um grande espelho, daqueles bem antigos, que refletiu a imagem dela. “Cruzes, pareço um cachorro encharcado!” ela pensou, rindo de si mesma.
Tentou dar um jeito no cabelo, mas as coisas só pioravam. Deixou pra lá e pediu ao garçom idoso que trouxesse um café forte e bem quente. Tudo ali era antigo. Esperava que, pelo menos, o café fosse recente... riu mais uma vez...
Olhou em volta do bar. Numa mesa próxima, seus olhos cruzaram com os de um homem que estava observando tudo que ela fazia. Pelo jeito, chegou bem antes dela – estava menos molhado e já tinha um café na sua frente. Ele olhou pra ela e deu aquele sorriso de cumplicidade – dois enxotados da rua, pela chuva, pra dentro daquele velho bar.
Quando o garçom chegou com café, ela olhou para o homem e ele levantou a xícara em direção a ela. Fizeram um brinde silencioso, sorriso no canto da boca.
Ela levantou e foi ao banheiro, tentar se enxugar um pouco. A porta externa se abriu e lá estava,  parado, o outro cliente. Sorriram um para o outro. Ele trancou a porta e foi em direção a ela. Ali se beijaram,se agarraram, fizeram amor. Sem dizer uma palavra. Apenas sussurros de prazer e gritos de clímax. Como chegou, ele partiu, sem dizer uma palavra.
Quando ela saiu do banheiro, ele estava colocando sobre a mesa o dinheiro do café que tomou. Caminhou para a porta do bar, viu que a chuva tinha passado e partiu. Ela pagou seu café e saiu do bar, caminhando em outra direção.

TUTTI

TUTTI

Nos dois primeiros dias chegou no colo da minha filha – pelo brilhante  preto, mancha branca na cara que nem uma máscara, olhos meigos – e sempre fazia as mesmas coisas: tomava leite, bebia água e depois dormia – a tarde toda, enroscada, saciada, segura. No início da noite era levada de volta ao lugar em que foi encontrada.
Na manhã seguinte, vinha ela, pulando no colo da minha filha na piscina do clube. No terceiro dia, decidi que ela ia ficar. Demos um nome – Tutti – e aquela figurinha com pouco mais de 2 meses de idade ( segundo o veterinário ) entrou em nossas vidas, entrou em minha vida e dela se adonou.
Andava pela casa, livre, segura, aconchegada. Só gostava de dormir na minha cama e, à noite, se ousasse colocá-la na cozinha ou na área, miava alto, fazendo escândalo, protestando até ser atendida. Ao longo de sua vida, outros amigos chegaram – o primeiro ela recebeu meio arredia, no princípio, mas dois dias depois, estava deitada no chão amamentando o novo amigo que não saiu de dentro dela, mas tornou-a mãe, com leite e todo amor pra cuidar dele. Outros vieram, nasceram – ela arredia, no princípio, matriarca logo depois.
Quando eu chegava em casa era sempre a que estava na porta me esperando. Dava um miado baixo, meigo, demonstrando saudade e boas vindas. E aí grudava em mim, onde estivesse, ela estaria. Deitada no chão me olhando, atenta a qualquer movimento ou reação minha. Uma vez fiquei doente e ela passou todo o tempo deitada ao meu lado, me olhando com olhos melados mas que transmitiam a impotência em não poder fazer nada.
Eu costumava dizer que alguém falou pra ela que tinha alma de cachorro; tomava conta da casa, me avisava se algum amigo estava preso em algum quarto ou banheiro, se o filtro tinha vazado inundando a cozinha... Chegava miando forte e enquanto não a acompanhasse pra ver o que era, não sossegava...
No colo, só se fosse segura como um bebê – barriga pra cima – e nesses momentos conversávamos, ela e eu, eu falando, ela miando, me respondendo. O amor nos olhos dela me acompanhava cada momento. Colo, só o meu, de mais ninguém. Ficava na porta do box, enquanto tomava banho, linda, matriarca, amor em forma de gata.
Dezesseis anos do mais puro, incondicional, inquestionável amor. Amor sem pedir nada em troca. Leal, fiel, doce, meiga até o último momento. Os últimos quinze dias de vida passou no meu colo, na posição que tanto gostava e só comia de colher dada por mim.
E numa tarde, deitada no meu colo, aconchegadas nós duas, num determinado momento, virou o rosto, olhou fixo nos meus olhos e parou de respirar.
Perdi minha companheira, confidente, amiga – conversava toneladas com ela, sobretudo sonhos, esperanças, alegrias, traições e ela sempre ao meu lado, brincando quando era hora, quieta quando respeitava minha dor.
Perdi minha amiga; parte de mim viveu e morreu com ela. Minha Tutti Tutti, como a chamava, não está mais. Partiu no meio da tarde, serena, segura, no meu colo,como gostava, deixando uma saudade imensa que só faz aumentar cada dia.
Mas sou abençoada, privilegiada porque durante dezesseis anos minha Tutti Tutti iluminou e aqueceu minha vida.

CONVERSA DE TÁXI 3

CONVERSA DE TÁXI
III
Temporal. Torrencial. Sem guarda-chuva, mais uma vez, encharcada. Desesperada por um táxi. Nada. Todos lotados. Passou um, passaram 10 e de repente no meio do aguaceiro ela conseguiu enxergar que o que vinha estava VAZIO!! Prêmio dos prêmios... mais uma vez se atirou na frente do carro, acenando como louca pra ele parar. Nova freada brusca, nova entrada desesperada, sem fôlego, encharcada. Se jogou no banco de trás e, quando olhou para o retrovisor o motorista estava às gargalhadas...
-nossa, moça, parece que a senhora marca encontro comigo toda vez que chove e a senhora tá encharcada, desesperada!! Mais uma vez, quase te atropelei...
-moço, é o senhor!! não acredito...
-vou desligar o ar, pra não se resfriar. Vamos pro mesmo lugar da outra vez??
-é, Tijuca...
-sabe, tô com novas músicas...vou colocar pra senhora ouvir, já sei que gosta...
- gosto sim. São bem bonitas. Seu cumpadre continua gravando pro senhor??
-então não? Sabe, ele tá aposentado, então se distrai fazendo essas gravações pra mim. Legal, né?
-muito. Todo mundo sai ganhando- seu cunhado que arranja ocupação, o senhor que fica com um som legal no carro e seus passageiros também que podem ter momentos de boa música...
-a senhora acredita que tem gente que não gosta? Outro dia peguei um sujeito todo arrumado, de terno e pensei “esse vai gostar” e perguntei se podia ligar o som
-e aí?
-ele disse vai em frente – e coloquei Rod Stewart- sabe aquele cd de música antiga?
-sei, adoro!
-acredita que ele falou “isso? Isso lá é música? Pensei que você ouvisse funk...desliga isso, vai...”
-funk, dona?? Eu tenho cara de quem ouve funk? Olha meus cabelo grisalhos, eu lá vou ouvir aquelas coisas ( aquilo não é música) chamando mulher de cachorra, umas letras agressivas... não é que o cara, todo enternado, gostava!!!
-sei lá onde a gente vai parar, moça...a senhora é professora, né?
-sou. como o senhor sabe?
- moça, da outra vez a senhora falou, mas acho que tava tão atordoada com a chuva que não deve lembrar...mas eu lembro...
- é, sou mesmo...
-a senhora deve padecer com as turmas, né?
-padecer como assim?
- moça, essa garotada agora não tem mais respeito por nada nem por ninguém. Se acham os donos da verdade, são agressivos- falta de educação mesmo, moça...
Em rio que  tem piranha, jacaré nada de costas...
-...não são tantos assim...tem muita gente interessada...
-interessada em ter o “diproma” – assim que essas antas falam – nem o nome  diploma falam direito... se a senhora ouvisse as conversas que ouço dentro desse carro... juntam 2 ou 3 e saem da prova se gabando como colaram, rindo dos professores, como uns maiorais... uma vez não agüentei, era tanto deboche que disse pra eles “é vocês colam, se acham espertos, acham que enganaram o professor, mas o professor já tem uma profissão, uma carreira e vocês, vão ser o quê? Coladores profissionais?”... na hora ficaram caladinhos...desaforo, falta de respeito...
-moço, é no próximo quarteirão...
-me lembro moça, pode deixar......pronto, aí tá a senhora, são e salva e menos molhada...
-obrigada ao senhor
-obrigada a senhora e no próximo temporal a gente se encontra...
Nunca mais o viu...

CONVERSA DE TÁXI 2

CONVERSA DE TÁXI
II
A chuva era torrencial. Possibilidades de pegar um táxi – zero. Estava encharcada, pingando água como se tivesse saído do chuveiro.De repente, aparece um táxi, ela praticamente se atira na frente dele, o motorista dá uma freada e ela se joga lá dentro, quase sem poder falar.
-moço, obrigada. Olha como eu estou. Vou molhar seu carro todo
-problema nenhum, moça. Fiquei assustado porque quase atropelei a senhora. Agora tá mais calma? – enquanto isso o carro está parado.
-estou sim, obrigada, mas quero lhe pedir um favor – pode desligar ou diminuir o ar condicionado, estou tão encharcada que tenho medo de pegar uma gripe
-claro. Pra onde, moça?
-Tijuca. Pelo túnel...
-já vi que a moça gosta de emoções fortes...
-como assim?
-moça, passar por aquele túnel, essa hora da noite é meio suicídio, né? Mas tudo bem, vamo embora... A senhora é professora, não é?
-sou, sim....
-imaginei, pelo horário, aqui nesse lugar, debaixo desse aguaceiro... só sendo professora mesmo... gosta de música?
(toda arrepiada de frio e antevendo o pagode que viria...)
-depende da música
-sabe o que é, eu tenho um cumpadre que grava um monte de cd pra mim só de música que eu gosto e daí fico escutando o dia todo, ajuda a passar o tempo...
-sei...
-mas quando tô com passageiro, sempre pergunto antes, que tem gente que não gosta, nem de conversar, a senhora acredita??
-acredito. Mas pode colocar sua música. Não me importo...
Pra surpresa dela, começa uma seleção de Frank Sinatra...
-moço, que músicas lindas!!
-pois é, moça, ajuda a acalmar, né? Aposto que a senhora nem tá mais lembrando que tá molhada como um pinto...
A viagem foi ao som de Sinatra. Chegou em casa ainda molhada, mas de espírito renovado... fez tudo valer a pena...

CONVERSA DE TÁXI 1

CONVERSA DE TÁXI
I
-Bom dia!
-...dia
- por favor vamos pra  Ipanema?
- quer ir por onde?
- pelo túnel, né? É mais rápido... to meio apressada...
- túnel? Tá tudo engarrafado. Quer assim mesmo?
- não, moço, quero ir rápido. Já disse que to atrasada...
- isso que dá- fica molengando pra sair de casa, depois quer milagre...
-molengando?? O que o senhor sabe da minha vida?? Que papo é esse?
-calma, dona. Tô só falando... na moral, se saísse mais cedo, não tava nessa correria, querendo milagre...
-quem falou em milagre??? O senhor pode só dirigir e me deixar sossegada...
- ta bom, a senhora quem manda....trimrimrim  alô, oi amor...
-moço, o senhor não pode dirigir e falar no celular...
-mor, pêra aí...escuta aqui, dona, o carro é meu, o cel é meu, o amor é meu, sacou??
- mas assim não dá...
-mor, pêra aí de novo – dona o que não dá é a senhora enchendo meus ouvidos desde que entrou no meu carro...fala amor...sei, mas fala pro teu irmão que não dá pra gente ir nesse churrasco....sei amor que você quer ir, mas já marquei o futebol com a rapaziada – pêra aí – ô desgraçado, olha por onde anda... não amor, não foi com você... tá bom conversa com ele e de noite a gente se fala... beijo... ah! Olha, me espera bem cheirosa que hoje tem... também te amo...
- acabou? Agora pode dirigir com mais atenção??
- ............
-parece que hoje vai chover, né?
- olha dona, se vai chover não sei, mas o que sei é essa cidade, sem chuva já é uma zorra, com chuva vira uma m....
- (fingindo não ter ouvido a última palavra) tem muito boeiro aberto...
- culpa de quem??? Governo!!! A gente paga uma p.....de imposto e eles mete tudo no próprio bolso... é a gente tá entregue mesmo... pronto, tamos em Ipanema- qual é a rua?
-Visconde de Pirajá, esquina da Vinicius
-que Vinicius?
-Vinicius de Moraes...
-ahn, aquela... tá...
-aqui mesmo tá bom. Quanto é?
-o que tá marcando no taxímetro! Num tá vendo?? Melhor usar óculos...
Saltar do táxi correndo e tomar um banho de sal grosso foi a única coisa que passou pela cabeça dela! ...

VIVER

VIVER

Estranhos prazeres
Bizarros dizeres
Adoráveis quereres
Passam, permanecem,
Nunca chegam
Permanentes fazeres
Esporádicos cresceres
Emotivos dizeres
Cantados sofreres
Em prosa e verso
Tudo isso, nada disso
Eternos aprenderes
Apenas viveres

AMOR

AMOR

Aconchego, chamego
Sossego que aquece
Dor indolor
Porque é de amor
Fogo que arde
Brasa que queima
Sem machucar
Boca encantada, escancarada,
Gulosa, saborosa, gostosa
Que tudo saboreia, chupa,
Beija, esbanja calor
Encanta, espanta, saboreia afoita
Fruta suculenta
Esmiúça, procura, encontra
Cada canto, recanto,
Encanto de prazer
De viver de amor.

RIMAS

                                                               RIMAS

Falsidade rima com amizade
Amor rima com dor
Despeito rima com respeito
Crescer rima com sofrer
Transparências revelando carências
Opostos que se completam
Nem sempre andam juntos
Mas quando andam
Somos mais humanos