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Simone,


A luz que brilha nos meus olhos vem da minha mente, fervilhante de idéias, pensamentos, sonhos...através de meus dedos e mãos trago vida a esse turbilhão, colocando em palavras o que insiste em gritar dentro de mim...

Cada movimento das árvores bailando ao vento traz encanto e paz ao meu ser; cada pássaro que ouço da minha janela traz música à minha alma...Assim sou eu, dando valor a cada pequena coisa, tornando-a valiosa e importante!



Simone































sexta-feira, 22 de março de 2013


REVELAÇÕES


O ônibus avançava, lentamente, pelo caminho. O balanço que provocava sempre fazia a mulher ficar sonolenta. Não hoje. Hoje ela olhava o marido sentado ao seu lado, segurando uma revista, olhava a paisagem  ao redor – tudo tão conhecido, tão familiar, no entanto tudo hoje era novo. Hoje. Ela era outra mulher.

Havia uma desconhecida que gritava dentro dela. Uma desconhecida que tinha seus braços, pernas, cabelo, roupas, mas cujos sentimentos e emoções ela desconhecia. Havia uma desconhecida dentro dela que sentia raiva, nojo, decepção até então emoções desconhecidas para ela. Não mais. Não hoje.

A verdade, até então oculta, dissimulada, encoberta, em um segundo surgiu diante dos seus olhos, chicoteando seu rosto, derrubando tudo que, até então, ela acreditava. Hoje ela conheceu o medo, a vergonha, a raiva. Coisas feias que cresciam dentro dela e transtornavam seu interior.

A mulher que passou a habitar nela uivava de raiva, se dilacerava de horror, rasgava suas entranhas, com suas unhas invisíveis mas que destruíam tanto como se verdadeiras fossem.

Aquele ser desconhecido – que até então fora seu marido, seu homem – tornou-se objeto de nojo, de repugnância ao seu lado. Hoje ela viu a verdade sobre ele. Hoje todos os véus desabaram – todos os artifícios que ele usara, até então, desde o princípio, desmontaram na frente dela – somente dela. E o nojo por ele se instalou em seu interior, junto com a raiva.

A mulher lembrou como ela e aquele ser abjeto se conheceram, casaram e começaram a construir uma vida. Lembrou como ele era, no princípio – amoroso, cuidadoso, risonho. A vida era risonha e rósea.

Hoje não. Hoje o verdadeiro ser apareceu diante de seus olhos. Mas ele de nada sabia. Não sabia que seus véus tinham desaparecido, não sabia que seus segredos evaporaram como fumaça, expostos perante os olhos dela – olhos de horror, de nojo. A mulher dentro dela berrava se dilacerando – uma mulher nova que a fazia outra, sabendo agora o que era ter raiva, rancor, ódio. A mulher olhava aquele homem, sentado a seu lado, e tinha impulsos de jogar na cara dele todo nojo, todo horror, toda repugnância que sentia.

Hoje ela passou a conhecer, através dessa nova mulher na qual ela se transformou, o que é ter desprezo, ter vontade de esmagar alguém como se esmaga a cabeça de uma serpente. Porque ele nada mais era que uma serpente peçonhenta que se alimentou todo esse tempo da sinceridade dela, do amor que ela sentia, pela primeira vez na vida.

Hoje, caminhando a esmo, num beco deserto, toda a verdade foi jogada na cara dela. Seu marido, seu homem e Davi. Escondidos de todos ela ouviu Davi dizendo ser amante do corpo dele e o viu beijando apaixonadamente a boca de Davi.