A CONTRIBUIÇÃO
“Alô”
“Alô, bom dia...”
“Bom dia...”
“Senhora, eu sou do asilo de idosos Vida Feliz e queria falar com a senhora...”
“Pois não... pode falar...”
A moça que ligava deu uma parada – estava acostumada com reações do tipo... bater telefone na cara dela ( muito comum ), ouvir ‘não obrigada’, ‘não quero nada’, ‘não estou interessada’, ‘agora tô super atrasada’... mas ouvir ‘pois não, pode falar’, pegou-a de surpresa
“Então, senhora, é que nós abrigamos 187 idosos, senhores e senhoras e estamos fazendo ligações pra pedir que as pessoas contribuam com nossa entidade...”
“Certo... e qual o tipo de contribuição vocês estão pedindo?”
“Bom... – acostumada com telefone batido na cara, a moça não tinha nem como explicar do que precisavam... foi pega de surpresa...- então... a gente tá precisando de agasalho...- entusiasmada – na verdade a gente está começando uma campanha do agasalho e se a senhora pudesse ajudar...”
“Posso sim... – pausa – e precisam de mais alguma coisa?”
Nessas alturas a moça estava muda, porque seu pobre discurso telefônico nunca passou da primeira frase que era sempre interrompida...
“Bom, então, a gente também tem um carnê pra sócios...é assim...”
“Já sei... a gente recebe um carnê e paga mensalmente e com esse dinheiro vocês vão mantendo o asilo...é isso?”
“Então...é isso... e a gente tem também alguns encontros, a gente faz churrasco, festa junina...e os sócios são sempre os primeiros a serem convidados...”
“Entendi... pode me mandar um carnê, também...quero me tornar sócia...”
Nessas alturas a moça estava quase em transe – já tinha levado umas 50 broncas do dirigente do asilo, porque não conseguia trazer nenhuma contribuição – outra telefonista sempre conseguia, pelo menos uma por semana e ela nunca...
“Puxa, muito obrigada... então, vou precisar de alguns dados seus pra poder mandar o carnê...”
“Sim, claro...do que você precisa?”
“Bom, então... seu nome completo, seu...”
“Espera um momento... meu nome completo? como assim? VOCÊ está me ligando... tem que saber o nome da pessoa com quem está falando... ou não?”
Silêncio do outro lado...
“Alô...hei, você ainda está aí?”
“Sim, senhora, estou...mas é que a gente recebe uma lista de números de telefones... na verdade a gente só fica sabendo o nome se a pessoa quiser ajudar a gente...”
“Ah, entendi...então você não sabe com quem está falando? é isso mesmo?”
“Sim senhora...então, se a senhora me disser seu nome e seu endereço, a gente faz o carnê e manda pra sua casa pelo correio e também coloca seu nome na lista de sócios e a senhora vai ser convidada pra tudo – churrasco, festa junina...” – o entusiasmo na voz dela era perceptível
“Ok, então vamos lá... meu nome é Marilyn Monroe e meu endereço...”
“Desculpe senhora, mas como é seu nome? pode repetir?”
“Marilyn Monroe e meu endereço...”
“Senhora, desculpe de novo...mas como é que se escreve seu nome?”
“Marilyn – m ( de mamãe ) – a ( de avião ) – r ( de rato ) – i ( de idiota ) – l ( de Lucia ) – y ( de York ) – n ( de navio )”
“Desculpe, senhora....mas é o quê de órque ?”
“Y, minha filha, Y – uma letra que vem antes do Z no alfabeto...”
“Então, senhora, é isso ai que a senhora falou ou Z ? desculpe mas não tô entendendo...”
“É isso que falei... mas faz o seguinte – coloca i ( de idiota )...”
“Tá bom...então é dois I, é isso?”
“É, com dois I tá bom...”
“E o resto? a senhora pode falar letra por letra?”
“Vamos lá – m ( de mamãe ) – o ( de orelha ) – n ( de navio ) – r ( de rato ) – o ( de orelha ) – e ( de elefante ) – Marilyn Monroe...”
“Ah, agora já sei, tenho uma vizinha que tem o nome da senhora – Mérilin Monrôu...mas o dela não escreve como o seu não... engraçado o seu, diferente...”
“Pois é, então agora já tem meu nome... que mais você precisa?”
“Seu endereço, pra mandar...”
“Já sei, o carnê pelo correio... tá bom escreve aí... Connecticut Avenue, 4600, apartamento 620, Washington D.C., U.S.A.”
“Senhora, pelo amor de Deus, o que é isso? que endereço é esse? todo estranho?”
“É o meu endereço...você ligou pra minha casa, me contou um monte de coisas, pediu pra eu ser sócia do asilo, quer meu nome e endereço, tô passando tudo pra você... qual é o problema?”
“Não senhora, a senhora não fica ofendida, não, mas sabe... é que esse seu endereço... eu não entendi uma palavra...só os números...”
“É que moro nos Estados Unidos...”
“Desculpe, senhora, mas a senhora mora onde??? Estados Unidos? como assim? eu fiz uma ligação local...”
“Olha, eu estou na mesma cidade que você, agora, mas eu moro nos Estados Unidos e você pediu meu endereço – é esse que falei antes...”
“ Bom,então, senhora dona Merilin, o carnê vai ter que ser mandado pros Estados Unidos? lá na América? é isso mesmo?”
“Exatamente...coloca no correio aqui que eu recebo lá...simples, né?”
“Então, senhora, não sei... tenho que falar com meu chefe, porque aqui a gente tá acostumada a mandar pelo correio mas é pra essa cidade mesmo... sendo pra mais longe...não sei se ele vai deixar...”
“Olha, estou querendo ajudar, quero receber o carnê, mas se não pode mandar pro meu endereço, tudo bem, a gente encerra a ligação agora...”
“Não senhora, por favor, não desliga...se a senhora puder esperar um momentinho eu vou estar perguntando pro meu chefe e já falo com a senhora...por favor não desliga, volto já...”
Menos de um minuto depois a menina voltou
Alô, dona Mérilin, então, eu falei com meu chefe e ele disse que vai mandar sim, lá pro seu endereço... a senhora pode me passar, por favor? mas, senhora, fala as letras, por favor...”
“Ok, então lá vai... c ( de cachorro ) – o ( de orelha ) – n ( de não ) – n ( de não) – e ( de elefante ) – c ( de cachorro ) – t ( de triste ) – i ( de infeliz ) – c ( de cachorro ) – a ( de amor ) – v ( de viagem ) – e ( de encantamento ) – n ( de não) – u ( de urubu ) – e ( de elefante)... pegou tudo?”
“Olha dona Merilin, pegar...peguei, mas tem uma palavra aí que não entendi - essa da letra v... como que se escreve viagem?”
“ Esquece... vou te dar o resto do endereço, né?”
A moça estava encantada com a forma como estava sendo tratada... Depois da trocas de informações, ela finalizou
“Então senhora, quero agradecer muito toda sua atenção.. .puxa, há tanto tempo que não sou tratada assim...sabe, vou contar pra senhora, dona Mérilin, geralmente as pessoas batem com telefone na minha cara...mas a senhora...muito gentil...obrigada...”
“Que é isso, menina, a gente tá nesse mundo pra ajudar, né??”
“Pois é, então, dona Mérilin, já que a senhora foi tão gente fina comigo, será que a senhora não tem alguma amiga ou amigo que a senhora possa indicar pra ajudar nosso asilo...porque a senhora sabe, né dona Mérilin, os churrascos custam caro e a festa junina, então, ixxi, nem sem fala...mas a senhora vai se convidada pra tudo, pode ficar descansada...”
“Eu estou descansada... agora quanto aos amigos, é... até posso indicar uns dois...você quer anotar os nomes?”
“ Ah, quero sim senhora e em nome do asilo Vida Feliz eu agradeço muito...pode passar os nomes, por favor...ah, e se a senhora tiver também os telefones, dona Mérilin, eu vou agradecer muito...senão, vejo na lista...”
“Nomes eu tenho, mas telefones não tenho, porque eles se mudaram e tem um tempo que não falo com eles...mas se você procurar, vai achar na lista, sim...”
“Então tá ótimo...pode falar, por favor, senhora...”
“Toma nota – Sir Lancet Olivier e Charles Windsor Castle...”
“Ai, dona Mérilin, pelo amor de Deus, a senhora tem uns amigos com uns nomes estranhos! ninguém chama José ou Antonio...né?”
“ É, não chamam não...mas pode deixar que te digo letra por letra... e depois você procura o telefone na lista...”
Soletrou os dois nomes – uma loucura pra atendente entender ‘Sir’, mas no final, tudo funcionou. Ela estava muito agradecida e prometeu mandar o carnê pelo correio o mais rápido possível e arrematou
“Olha, dona Mérilin, quando tiver churrasco, vou mandar convite pra senhora e faço questão de conhecer a senhora pessoalmente – tão gentil...”
“Pode mandar, que eu vou, com muito prazer...agora tenho que desligar...”
“Claro, dona Mérilin, o asilo Vida Feliz agradece muito sua atenção e tenha um bom dia...”
“Obrigada...bom dia pra você também...”
Norma desligou o telefone, olhou relógio e pensou ‘ainda bem que arranjei o que fazer nesse tempo que estou esperando Arnaldo...agora ele já está chegando....vou descer...’
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