O ESQUECIMENTO
A gargalhada, seguida de palmas, ecoou no teatro vazio. Heitor, sentado na segunda fila e Júlia, no palco, olharam na direção dos ruídos. Heitor, sentado, enxergou logo, mas Júlia, sob os holofotes, teve que colocar a mão nos olhos, pra ver. Ali estava ela, grandiosa, com sua aura de eterna diva – Margarida – envolta em echarpes, sua marca registrada, maquiagem pesada, descendo majestosa em direção ao palco.
Levantando, Heitor foi até ela, com um gentil beijo na mão, convidou-a pra sentar...
“A que devemos a honra? assim, de repente? ...”
“ Não tão de repente, meu caro... – e deu tapinhas na perna de Heitor - ...não repentino...se fosse mais...digamos, perspicaz, imaginaria que era questão de tempo eu aparecer por aqui... não é?” – olhando fixo pra ele
Júlia, ainda no palco, observava a conversa, tentando, através da luz do holofote, ver melhor Margarida. Movimentou-se no palco, buscando um ângulo com melhor visão...seu movimento atraiu atenção de Margarida
“Então é você, minha jovem ( carregou na expressão ) quem vai ser a nova Margot ?...grande responsabilidade... hum... – jogando a echarpe por cima do ombro emendou, sem esperar resposta – espero que não se importe se eu ficar um pouco por aqui...”
Olhou pra Heitor, não perguntando, mas informando sua intenção de ficar e fez um gesto de mão como dizendo ‘prossiga’...
Júlia, até então muda pela surpresa da visita e por ser ver frente a frente com a grande atriz, uma diva, sentiu as pernas fraquejarem quando viu que ela pretendia ficar e assistir o ensaio – mais passagem de fala, na verdade...
A um sinal de Heitor, retomou a leitura, voz saindo fraca, no início, intimidada... o diretor pediu que relaxasse e retomasse, com a emoção de antes da interrupção... Margarida fuzilou-o com os olhos, com a palavra ‘interrupção’ – como ousava ele?...
Aos poucos, pressão foi baixando e Júlia retomou e, quando chegou ao final, uma Margot esplendorosa brilhava no palco. Heitor virou-se pra Margarida e a viu parada, olhar bem longe, mas suas mãos, retorcendo em seu colo, mostravam a emoção sendo absorvida por aquela mulher...
“Foi bom, minha jovem, foi bom...claro que ainda tem muito pra aprender, mas pra quem está começando ( nova ênfase ) até que não está mal... e você, Heitor, procure interferir mais nos ensaios...não fique tão apático...”
Ela disparava farpas pra todos os lados, despejando emoções sem controle. De repente se levantou, jogou a echarpe e, já de costas, caminhando pra porta, abanou a mão e disse ‘até logo’, sem olhar pra trás...
Na rua, acenou pro primeiro táxi que viu e deu endereço de casa. Olhava pela janela do carro, sem ver o que passava. Pensativa, distante, a voz de Júlia ainda ecoando nos ouvidos aquelas frases que conhecia tão bem...
Saltou do carro, entrou em casa – seu quarto era seu único refúgio atualmente – olhou em volta, abriu armários, gavetas, colares antigos, várias echarpes, vestidos longos...sua vida colocada na sua frente, através do que usou... lembrou das noites de estréia, camarim repleto de flores, pessoas vindo abraçar, elogiando sua atuação e ela reinando, absoluta, no meio daquele burburinho... quando pisava no palco, em sua primeira entrada em cena, podia sentir a platéia quase prendendo a respiração...
Esse magnetismo que exercia nas pessoas no palco, trazia na vida real – mantinha-se diva 24 horas por dia...vestia-se e se comportava como grande estrela, estivesse ou não no palco... se olhou no espelho e deu um rasgo de sorriso... diva ... onde estavam as flores? as pessoas aplaudindo, prendendo respiração?
Não lembrava como nem quando começou o esquecimento... os convites começaram a escassear, suas atuações já não despertavam grande interesse popular, com ingressos sendo disputados...pouco a pouco, tudo foi diminuindo... até não mais chegarem roteiros, flores, pessoas... Vagava sozinha pela casa, acompanhada das lembranças, colares, echarpes – de lembranças era feita sua vida hoje...
Tornou a se olhar no espelho e o sorriso triste surgiu no canto da boca vermelha de batom...hoje, vendo Júlia no palco, tão jovem, tão fresca, com tanta paixão, se lembrou de si mesma no início – tudo se repetia – o mesmo entusiasmo, a mesma entrega, as mesmas ilusões, a mesma certeza ((insana) de que duraria pra sempre...
Uma nova Margot surgia, uma nova estrela pra ser mimada, adulada, cortejada, aplaudida... depois dela, nunca mais outra atriz viveu aquele personagem tão complexo, tão cheio de nuances, dúvidas, crises existenciais... A comparação com sua atuação seria inevitável... fotos antigas seriam resgatadas, mostrando-a no apogeu da juventude e quem sabe, alguma foto atual – que Deus a livrasse desse embaraço...
Foi ao teatro naquela manhã – queria ver a nova Margot – não iria assistir à peça, muito menos à estréia...sua saída de cena seria triunfal...seu status de diva seria mantido intacto...
Uma garrafa de scotch na mão e um vidro de comprimidos na outra – uma rápida olhada no espelho, conferindo echarpe, cabelo e maquiagem – deitou-se na cama, comprimidos e scotch seguiram pelo mesmo caminho... não demoraram a fazer efeito – o que ela desejava... Uma diva, envolta em echarpe, colares, maquiagem e sonhos desfeitos... assim foi descrita nos jornais, ao lado de fotos antigas de sua época de glória. Mesmo após a morte, manteve-se diva.