AMOR DE OUTONO
Leonor caminhava pela praça, em direção ao banco onde, mais uma vez, ia encontrar Osvaldo. Hoje, por ser 5ª feira, sabia que ia receber uma rosa – ele mantinha esse hábito desde que se conheceram, há dois anos atrás, numa 5ª feira, naquela mesma praça. A surpresa da flor, ficava na cor – cada semana uma diferente e ela sempre ficava na expectativa, tentando imaginar a “cor” da semana...
Cabelos brancos como neve, andar lento, com seus 75 anos, ela se arrumava, duas vezes por semana, pra encontrá-lo – 2 anos esse hábito se mantinha, 2 anos os encontros aconteciam, somente sendo interrompidos em dias de chuva – impossível ficarem num banco de praça, debaixo de chuva...
Mas Osvaldo logo encontrou uma alternativa pra dias chuvosos – ali mesmo, bem perto da praça, havia uma lanchonete, simples, mas acolhedora o suficiente pra que se sentissem bem...
Onde quer que acontecessem, esses encontros traziam aos dois uma alegria, uma renovação. No primeiro dia, por acaso, sentaram-se no mesmo banco – ficaram ali, sem se falarem, apenas olhando as pessoas, sentindo o vento leve no rosto, ele lendo jornal, ela com um tricô na mão. Levantaram quase ao mesmo tempo, cada um em sua direção.
Sem combinação, dias depois, voltaram a se encontrar no mesmo banco – sorriram um pro outro, num gesto de reconhecimento tímido, ele lendo jornal, ela com o tricô. Em determinado momento, ele dobrou o jornal e fez um comentário sobre alguma coisa banal – ela interrompeu o tricô, deixando sobre o colo, respondeu e ali começaram uma conversa picotada de comentários gerais.
Aos poucos, semana após semana, se encontravam, agora já mais próximos, se conhecendo, os encontros marcados e esperados pelos dois. Um dia, ele apareceu com uma rosa – amarela – e entregou dizendo que simbolizava o dia da semana em que se conheceram – aquele dia, da primeira vez que sentaram no mesmo banco... ela se encantou com a gentileza dele, e demonstrou com um sorriso e um olhar caloroso.
Os dois com os cabelos brancos, ele com seus 80 anos, andando apoiado numa bengala, mas sorriso aberto e rosa na mão ao encontrá-la. Trocavam confidências, sonhos realizados, outros nunca alcançados, sucessos, frustrações, alegrias, perdas.. .a cada encontro, mais próximos ficavam... ali nasceu um amor, partilhado somente em sentimentos, emoções, carinho, convivência...somente os dois sabiam desses encontros, desses sentimentos... nunca partilhados com as famílias, apenas reservados a eles mesmos...
Do outro sabiam apenas o primeiro nome – nada mais – nem endereço, telefone, nada disso – a vida deles se resumia a esses encontros – aquele era o mundo que haviam criado pra eles e só os dois sabiam de sua existência...
Como fazia há tempos, Leonor caminhou em direção ao banco da praça – vazio, Osvaldo não havia chegado. Estranhou, porque era ele que sempre esperava por ela... Sentou-se e esperou... ele não veio... nem naquele dia, nem nos outros...
Por semanas, ela continuou vindo, esperando por ele e sua flor que jamais chegaram...Os olhos dela, cercados de rugas, que antes brilhavam tanto, começaram a perder o brilho, ficavam perdidos, olhando aquela praça que permanecia tão igual, como igual era o banco, mas que pra ela eram tão diferentes, porque faltava ele...
Um dia, voltou e lá estava ele, não no banco, mas numa cadeira de rodas...com uma flor na mão e um sorriso no rosto...olhar de saudade que a envolveu por inteiro, fazendo bater forte dois corações cansados que se tornavam jovens pelo reencontro.
Ela sentou perto da cadeira e, depois de receber a flor – vermelha – acariciou de leve as mãos dele, marcadas pela idade, assim como as dela, mas cujo toque lhes era tão familiar...
E nesse dia falaram do amor imenso que sentiam um pelo outro, da necessidade de estarem juntos, da aflição da ausência – cada um sentiu do seu lado, mas ambos sentiram... e a partir daí, nunca mais se separaram, partilhando cada momento com plenitude porque sabiam como era efêmera essa convivência. Continuaram indo à praça, ao que chamavam de “nosso banco”, mas chegavam e partiam juntos, mesma direção, ela segurando uma flor, um dia na semana.
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