Olá,

Seja muito bem vindo (a) !

São textos simples, mas saídos da emoção...

Quero muito saber sua opinião - compartilhe comigo e com os outros.

Um grande e caloroso abraço

Simone,


A luz que brilha nos meus olhos vem da minha mente, fervilhante de idéias, pensamentos, sonhos...através de meus dedos e mãos trago vida a esse turbilhão, colocando em palavras o que insiste em gritar dentro de mim...

Cada movimento das árvores bailando ao vento traz encanto e paz ao meu ser; cada pássaro que ouço da minha janela traz música à minha alma...Assim sou eu, dando valor a cada pequena coisa, tornando-a valiosa e importante!



Simone































domingo, 27 de fevereiro de 2011

ABOBRINHAS

Vou começar a escrever ‘abobrinhas’ ou sobre elas.... visito blogs que têm milhares de seguidores....com mensagens instantâneas,  do tipo ‘hoje vou comer só salada’, ‘ai que dúvida!  vou  ao bloco ou ao show da banda X?’ e por aí vai e todo mundo se interessa por esse tipo de coisa...
Argumentos: ‘ando tão sem tempo’, ‘só leio essas mensagens porque são pequenas’...Alôooooo....surprise!!  A VIDA NÃO É PEQUENA... em época de imediatismo, coisas momentâneas, tudo que passa de duas linhas, perde interesse, seja falado ou escrito ( esse, então, coitado, nem param pra ler).
Fico imaginando, e me perguntando, o que seria de nós, humanidade, se esse imediatismo, essa tecnologia em tempo real tivesse sido criada há mais tempo! O que seriam ( ou não seriam ) Camões, Eça, Shakespeare, Rimbaud, Flaubert, e tantos outros – sem esquecer Dante e seu ‘inferno’ – talvez ele, sim, pudesse retratar de forma super realista o dito cujo, porque, o que foi fruto de sua imaginação, estaria visível e vivenciável...
De onde iríamos obter cultura? quem teria o ‘maior número de seguidores’?
Como reduzir a 140 caracteres uma peça de Molière? ou um conto de Balzac? Madame Bovary teria tempo para trair? e Guerra e Paz - será que haveria tempo para chegar à paz? ou nada disso seria importante?
Quando vejo as construções européias, mesmo através do cinema ou da TV, respiro história, tradição, passado – nesses lugares viveram, sofreram, lutaram, amaram e morreram milhões de pessoas, cujas vidas deixaram um legado para nós...
E de repente a tela explode em luzes hig-tech... cegantes, atordoantes, fugazes, rápidas, nada deixando porque nada trazem, apenas os efeitos visuais... Estamos na época do FUGAZ ...Recentemente vi um vídeo sobre ‘um mundo feito de vidro’ – em termos de tecnologia, um espetáculo, mas tudo feito por máquinas, ao toque de  um dedo... as boas vindas à uma loja são dadas por uma parede onde aparecem um letreiro com boas vindas e seu nome... Tudo frio, impessoal, distante, solitário...
Chamem-me saudosista, retrógrada, antiquada...o que quiserem, mas tenho saudade, sim, da época em que as conversas eram olho no olho, no máximo por telefone, da época em que esperávamos o jornaleiro abrir a banca para comprar o jornal e saber das notícias, da época em que era insubstituível o prazer de segurar e ler um bom livro, não importando quantas páginas tivesse... Momentos preciosos, enriquecedores, tanto que nos forjaram para a vida ( será que hoje muitas pessoas sabem o que é ‘forjar para a vida’?).
Quem não domina computador, não tem ipod, ipad, tablet, wi-fi e ‘otras cositas más’...é um quase dinossauro...
Vou ter que começar a postar coisas do tipo: ‘saindo para shopping’, ‘desfile do estilista fulano foi um arraso’, ‘loura beija galã na porta do restaurante’, ‘romance à vista?  eles negam...’??
Coisas de alguma  relevância...emoções, sentimentos, revoluções internas, valores....nada disso importa, tudo se torna fugaz diante da grandeza de importância da cor do esmalte das atrizes...
Ainda bem que tenho um blog...escrevo o que quero....se alguém vai ler, ou não, impossível dizer...mas definitivamente me recuso a mudar para alcançar ‘milhares de seguidores’... interessante porque essa é uma pergunta que ouço com bastante freqüência –‘ quantos seguidores você tem no blog?’...tenho vontade de rir, porque nunca me considerei procissão, enterro ou escola de samba para ter ‘seguidores’! Sou uma pessoa que ousa escrever, de quando em vez, sobre coisas que penso, sinto e observo...nada além disso!
Mas escrevo longo, porque longos são meus sentimentos, pensamentos, emoções...Em tempo de vida fugaz...estou perdida... Mede-se a grandeza de uma pessoa pelo número de pessoas que lêem o que cada um escreve – mesmo que sejam ‘abobrinhas’...
Fico eu, aqui, com minhas digressões ( essa palavra só para ‘iniciados’...), minhas dúvidas e, quanto às ‘abobrinhas’, prefiro-as com um belo tempero, em um prato decorado...

sábado, 26 de fevereiro de 2011

OLHAR

Os olhos fixaram no rosto dela e lentamente começaram a descer pelo seu corpo. Como se ele deslizasse as mãos ou a língua, assim ela se sentiu, suas roupas se transformarem magicamente em seda e irem suavemente descendo pelo corpo, guiadas pelos olhos dele.
Ele voltou os olhos para os olhos dela – tudo se passou em fração de minuto – imperceptível aos estranhos, mas intenso, queimando entre eles – só eles.
Há mais de 20 anos repetiam, como um ritual de acasalamento. Fugaz, quase invisível, mas intenso – assim era o olhar com que incendiavam um ao outro. Sem pudor, sem culpa, uma entrega total, absoluta, visceral.
Ela abaixou as pálpebras lentamente, enquanto seus olhos azuis acariciavam o corpo dele, até os pés, voltando rapidamente ao rosto. E o ritual se perpetuava – um leve sorriso de cada um, esboçado – apenas os dois vivam e sentiam o fogo, a paixão que emanava de um para o outro.
Nada era acompanhado de um só gesto de mãos ou do corpo – apenas olhos ardentes, cobiçosos, gulosos, apaixonados, apaixonantes...
Nunca importou a distância ou local onde se encontravam. Sempre os mesmos olhares, sempre a mesma queimação interna, a mesma paixão, a intensa gula do olhar se mostrando um ao outro.
Nesses momentos, rápidos, havia uma total entrega mútua, física, percorrendo as entranhas, quase gemidas... Há mais de 20 anos e nunca o calor diminuiu, nunca a entrega foi menos intensa... Sempre total.
Desde o momento em que se viram pela primeira vez, sem se falarem, sem se conhecerem, seus olhos devoraram um ao outro. Nada disseram – apenas os olhares falaram e, como ferro em brasa, marcaram um ao outro para sempre...
Outros encontros aconteceram e o ritual teve início. A mesma chama, a mesma paixão, a mesma cobiça...
Alguns nasceram, mortes aconteceram e o olhar de brasa se mantinha aceso, deslizante, desnudante, despudorado.
Não se tocavam – apenas os olhos falavam – não precisavam se tocar – o fogo do olhar deles tocava e acariciava mais que mãos afoitas. As roupas eram arrancadas, expondo uma nudez física e emocional – e, no entanto, permaneciam vestidos. Nudez só deles, só para eles, em cumplicidade infinita...
Nesses encontros faziam amor, se entregavam, gemiam, suavam, exaustos ao final, plenos um do outro... Ele com os olhos castanhos, como veludo aquecendo-a e ela com seus olhos azuis como estrelas, iluminando todo interior dele, explosão de raios inundando suas entranhas...
Era fugaz, mas só deles esse intenso momento – perpetuado por mais de 20 anos, percebido só por eles.
Antecipada a sensação, o calor e a paixão em cada encontro. Coração disparado, corpo inundado de ansiedade e pressa por desnudar e ser desnudado. Desfrutavam da emoção antes de se encontrarem, vivendo o calor e a explosão que viriam. E sempre vinham. Cada vez, cada encontro, cada olhar.
De repente, tudo acabava – os outros se faziam presentes, com suas conversas, risos e barulhos. O momento deles havia terminado...
Mas sabiam que outros viriam, como todos que haviam vindo até ali e sabiam, também, que o ritual permaneceria, o fogo, a paixão, o desnudamento sem pudor...
Mais uma vez o momento deles passou. Mas foi vivido intensamente  e, com uma paz interior  trazida pela saciedade e certeza dessa intensidade, se misturaram aos outros, porque sabiam que no próximo encontro, o mesmo fogo, o mesmo calor, a mesma entrega aconteceriam , nesse ritual que se perpetuava por mais de 20 anos e mantinha acesa a chama do casamento deles...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

CHEGUEI AOS 50! E AGORA?

...agora? vai viver sua vida, coisa que provavelmente, você não fez até agora...pára um instante , exatamente como está neste momento, e pensa...
Se você chegou aos 50, é da geração que, desde adolescência, viveu pra estudar  muito  para ‘ser alguém na vida’...  perdi  a conta das vezes que ouvi essa expressão: ‘ser alguém na vida’. Mas que coisa é essa, afinal? Todo mundo vive despejando essa frase, como um mantra, repetidamente!  O que é ‘ser alguém na vida’?
Bom, pela ótica do sistema estabelecido, é ter uma carreira de sucesso  (profissional e, consequentemente, financeiro), cheia de êxito, ter um casamento estável, filhos aceitáveis, uma boa casa, um belo carro (de preferência dois, pra  marido e mulher)...enfim só coisas externas...
Ah! se esse ‘alguém’ é uma mulher, além de tudo que está no pacote, ela deve também ser ótima dona-de-casa... se você conseguiu atingir todas essas metas, marcou em todas as alternativas...parabéns! VOCÊ É ALGUÉM!
O que significa que toda sua vida, até agora, vem trabalhando compulsivamente para pagar contas e mais contas, sorriu milhões de vezes, sem querer, engoliu quilos de ‘sapos’, aturou chefes histéricos ou idiotas, às vezes histéricos E idiotas que estão na chefia por Q.I. ( quem indica), colegas de trabalho que fizeram da sua cabeça degrau pra eles terem a promoção que seria sua, perdeu noites de sono se perguntando se ia conseguir manter o emprego....  mas você conseguiu ser ALGUÉM!
O que é isso, eu não sei – nunca soube. E agora você chegou aos 50 anos...
Sendo mulher, vem convivendo com TPM ( tensão pré-menstrual ) mas a BOA notícia é...tudo tem um fim... Sendo homem, vem convivendo com TPO  ( tesão por outras ) mas a MÁ notícia é...tudo tem um fim...
O que você fez com sua vida? O que fez por você?
Então, agora é a hora de você dar uma guinada na vida – é o que os americanos chamam de ‘turning point’ ( chique, não é? ) – para nós é a popular virada que não precisa, necessariamente, ser dia 31 de dezembro...
Mas dar uma virada com bom senso. Se você parar por 10 minutos um dia, estando só e fizer uma retrospectiva, vai observar que fez várias, muitas, incontáveis coisas...menos viver!
Chegou aos 50!!!  comece a viver! ande menos de terno e gravata, menos de salto alto, olhe pro céu, uma vez por dia – custa nada, não perde nem 5 segundos... alimente sua alma, seu coração – você teve tanta preocupação em alimentar estômagos, mas agora chegou hora de alimentar sua alma!
Cante – mesmo que desafine -, escreva ( olha eu aqui....), pinte, dance ou apenas se dê o direito de ter um tempo no dia que seja seu, fazendo algo fora da rotina...
Lembra qual foi a última vez que você olhou para o céu e viu os rabiscos das nuvens?  ou quando sentou num banco da praia e se maravilhou com um pôr-do-sol? quando percebeu um pássaro cantando ou uma árvore bailando na brisa? você lembra?
A maioria das pessoas está muito ocupada ‘ganhando a vida’, quando deveria ter separado momentos, ao longo desse tempo, para ‘viver a vida!’...
A correria, ansiedade, a ânsia de alcançar as coisas, objetivos, acabam tirando de nós a grande oportunidade que a vida nos dá que é vivê-la! Cheguei aos 50 e, infelizmente, não me fiz essa pergunta: ‘e agora?’. Só fui fazer mais à frente, mas se pudesse, ou melhor, se soubesse, teria me dado ‘de presente’ de 50 anos a chance de ‘viver a vida’.
Passamos todo esse tempo trabalhando sofregamente, sobressaltados, preocupados em amealhar coisas materiais – afinal, na nossa sociedade, você vale pelo que TEM não pelo que É...
E a gente vai juntando coisas ( que na verdade mais da metade é de supérfluos, descartáveis e, acredite, pode-se viver sem essa  tralheira mesmo) – coisas que foram compradas pra nada. Essa constatação você enfrenta quando resolve dar a guinada – tirar de sua vida os ‘pesos mortos’...
Mas isso só no momento em que você decidir ‘viver a vida’ e tornar sua bagagem mais leve...Porque pra ouvir pássaro cantando, não precisa de TV de plasma, ipod – uso isso como exemplo das ‘coisas tão importantes’ e, acredite, é possível viver uma vida maravilhosa sem elas!
Seu carro zero, parado na garagem, dando despesa? livre-se dele – ande a pé – além de fazer bem à saúde, permite que você, ao caminhar, veja as pessoas de perto ( ao invés de ver através da janela fechada insufilmada do carro que apenas passa por elas...), veja lojas – aquelas de bairro, de calçada – não são sofisticadas como as dos shoppings onde você vai no seu carro zero, mas têm seu charme, coisas inusitadas à venda e pessoas simples e gentis ajudando numa compra...
Se  é mais longe, anda de metrô – você não vai morrer, eu garanto – e ainda vai se divertir com as figuras pitorescas e conversas divertidas que vai ouvir...
Saia desse seu mundo fechado, asséptico, cercado de vidros fechados, de ar condicionado, de planilhas e planejamentos. Desce do seu escritório no 30º andar e vem pra calçada, pra rua, viver a vida...
Viajar de ônibus de uma cidade pra outra é maravilhoso – você chega do mesmo jeito – mas não se cansou na estrada, não se estressou com trânsito e apreciou toda paisagem do percurso!
‘Guinada’ não é sair alucinadamente fazendo tudo que não fez até agora, não é descartar família nem emprego! É diminuir seu tempo nessa sofreguidão e se dar mais tempo pra aproveitar as coisas boas da vida – são simples, estão à sua mão e, o melhor, são grátis! Ser alguém na vida é vivê—la, apreciar o que está aí, na sua frente...
Desliga o celular de vez em quando! ninguém tem que ficar disponível 24 horas por dia! E daí se disserem ( com ar de censura velada) ‘liguei pro seu celular e estava fora de área’?
Você chegou aos 50 – PARABÉNS!  se quiser comemorar, muito bem, sua chegada aos 80, daqui até lá comece a VIVER e vai ser bem mais feliz!


IDENTIDADE

Uniforme da escola tinha um longo avental branco com o nome do aluno bordado no peito, com linha na cor da sala que aluno estava matriculado... laranja, azul, amarela, rosa....
O menino entrou no primeiro dia de aula e no seu peito estava bordado JÚNIOR...
As crianças sentaram em roda, no chão, e a professora pediu que cada um dissesse seu nome aos novos colegas.
Quando chegou a vez do menino, ele disse ‘Júnior’
A professora falou:
“Júnior não é o seu nome! Isso quer dizer que você tem o mesmo nome que seu papai... qual é o SEU nome?”
“Júnior...”
“Está bem... como é o nome do papai?”
“Papai...”
“Como sua mãe chama seu pai?”
“Chama meu bem...”
“Na sua casa tem empregada?”
“Tem...”
“Como ela chama seu pai?”
“Coronel...”

sábado, 19 de fevereiro de 2011

QUEIXA

QUEIXA
“Oi, tudo bem?”
“Não, vim aqui fazer queixa da professora Branca – hoje, durante a prova, ela sentou do meu lado e não pude colar...”

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A GARRAFA

Genésio Raimundo descia as ladeiras silenciosas naquele final de noite, início de manhã. Seus passos ressoavam nos paralelepípedos desencontrados. Terno amassado, sapato duas cores, gravata torta depois de  tanta agarração com Luzinete “Língua de Veludo”. Pose de lorde, cabelo desgrenhado, mas a gomalina ainda era visível.
Sorria sozinho, lembrando do fogo de Luzinete – não era à toa que tinha aquele apelido – Língua de Veludo – eita menina-mulher sabida nas artes da boca... Raimundo, Mundico, nunca encontrou outra igual em todo esse mundo de meu Deus por onde viajou...
E ele viajou – conhecia todos os bordéis e casas de putas, da Bahia até Maranhão – não só das capitais, do interior também; caixeiro viajante, rodava estrada com os produtos e seu apetite de fogo por mulher da vida. De dia vendia mercadoria, negociava, barganhava desconto pra clientes, comerciantes fixos ou gente de rua que vinha comprar.
 Mas de noite...  ah!,  de noite se esbaldava na bebida e com as mulheres – cada lugar tinha uma certa, preferida, que largava qualquer cliente pra ficar com Mundico – passavam a noite num fogo só, cada quenga querendo mostrar maior maestria nas artes da sem-vergonhice... As do interior, então, eram as mais fogosas – sabiam que Mundico andava lá pelas capitais e não podiam  ficar  pra trás das putas de capital.
Algumas pediam a Mundico pra contar como se vestiam e se arrumavam as meretrizes de cidade grande. Nada dava mais prazer a ele que contar detalhes das quengas de melhor nível pras outras, aquelas de baixo meretrício, dos becos e vielas do interior.
Naquelas horas que recuperava fôlego, depois de cavalgadas memoráveis com aquela fêmea, se refastelava na cama, charuto na mão – homem de gosto refinado, não se passava pra cigarro de palha – e se punha a contar todos os detalhes para aquela mulher deitada com ele, que ouvia tudo, de olho arregalado, sonhando... Contar esses detalhes, a lembrança das outras, excitava Mundico e logo, logo estava pronto pra nova cavalgada, exigente com a puta que tentava ( agora que conhecia as artes do amor e da sem-vergonhice de cidade grande ) se igualar ou até superar as rivais. E esses eram os melhores momentos de loucura de Mundico.
Só bebia conhaque. Um dia leu num jornal reportagem da morte de um figurão, dono de terras, político – morreu assassinado. O caso teve grande impacto na sociedade...seria crime político ou passional? Porque o tal figurão era dado a ter casos com mulheres casadas... Aí, vai que um marido mais ciumento resolveu lavar a honra com sangue do figurão?
Os jornais faziam estardalhaço todos os dias. Primeira página, cada vez com um lance mais apimentado e misterioso. Mundico lia tudo, mas seu único interesse foi no primeiro dia – o corpo foi encontrado com  3 balas no peito e um copo de conhaque ao lado. Conhaque. Bebida de figurão, digno de sair em primeira página de jornal...
Desse dia em diante, pra Mundico, só conhaque. A qualquer hora, com o calor que estivesse... Naquele agreste era difícil encontrar bebida pra paladar  tão refinado como o dele. Passou a carregar sua própria garrafa que colocava em cima da mesa, numa exibição orgulhosa de bom gosto e dinheiro.
Chegou à pensão onde alugava quarto, freguês antigo, sempre recebido com alegria pela gerente – pagava em dia, não criava briga nem confusão e ainda encontrava tempo pra contar algumas histórias picantes para Coralina, a gerente.
Nos finais de tarde, acabado o horário das vendas e antes de sair pra boemia e esbórnia, Mundico voltava à pensão, tomava banho pra se preparar para o que chamava “minhas horas de macho”...Nesse intervalo, sentava com Coralina e conversa corria solta, ela às gargalhadas com as sem-vergonhices que ele falava, se revirando toda, olhos e corpo em risadas sacudidas.
Matrona cheia de corpo, Mundico imaginava que tivesse sido puta em algum bordel no interior; depois veio pra capital e, com estágio na cafetinagem ( não tinha mais idade, viço ou fôlego pra receber e dar prazer pra homem ) conseguiu juntar dinheiro e comprou pensão – com vagas para cavalheiros...
Ali hóspede não levava rapariga – queria manter respeito da casa – mas a pose de “gerente de hotel para cavalheiros” não escondia passado de camas com variados machos...Fogosa era até hoje, olhos brilhavam com assuntos e casos de trepação... Diziam que era fixa de Quinzinho da farmácia, casado com mulher pálida, sempre com véu de missa e terço na mão, andava apressada  de olhos baixos. Um amuleto contra luxúria... Diziam – povo fala – mas nunca ninguém viu Quinzinho entrando ou saindo da cama de Coralina...
Mundico chegou no seu quarto, arrancou as roupas e meio bêbado de conhaque e sono, se jogou na cama. Ficava ali uns 2 ou 3 dias e tinha que aproveitar...lembrando de Luzinete e suas artes linguais, dormiu com cara de satisfação.
Acordou tempos depois com uma correria, gritos de desespero. De cueca, saiu pelo corredor pra se deparar com Coralina aos berros, arrancando os cabelos, lavada em lágrimas! Com muito custo, Mundico conseguiu entender que alguém na zona das putas tinha sido esfaqueada – ’15 facadas, Mundico, 15 facadas!’ Coralina repetia aos gritos de desespero...mas não dizia quem era a infeliz vítima...
Vestiu uma roupa qualquer e foi pra rua saber mais notícias – pessoas passavam espantadas, grupos de 2 ou 3 em esquinas – assunto era um só – as 15 facadas... Conversa com um, pergunta a outro, foi andando e chegou na zona dos bordéis e baixo meretrício – uma confusão só!
Mundico encontrou Nalvinha enrolada num penhoar de chita e lágrimas... Agarrou o homem pela camisa e berrava na cara dele ’15 facadas, Mundico, 15 facadas!’- as palavras jorravam daquela boca escancarada de horror, enquanto os olhos reviravam em agonia e dor – ‘sangue por todo lado, a tadinha toda furada, mais parece um retalho cheio de buraco...está lá, estirada no chão, ainda quentinha, nem esfriou corpo...’
“Mas quem levou as facadas? fala Nalvinha...”
“Oxente, então cê não sabe? pois num foi Luzinete...”
Luzinete, Língua de Veludo, agora calada pra sempre – apagado seu fogo, acabada sua alegria na cama, seus olhos virados na hora do prazer – arrancada sua juventude com 15 facadas...
Aconteceu que Honório, peão de agreste, chegou bem de manhãzinha na casa de Nalvinha e logo mandou chamar Luzinete – chamego antigo por ela, acostumado com suas malícias e delícias. Cansado da lida no campo, quando folgava vinha até cidade desafogar suas urgências e necessidades com Luzinete...Ah! menina sabida, conhecia as manhas e gostos de Honório e não se fazia de rogada... Ele se derretia todo nos braços, pernas e boca daquela guria, magra que nem um espeto, nem bonita era, mas fogaréu na cama...
Um dia, Honório propôs montar casa pra ela, com todo conforto – cama de casal, geladeira, fogão, televisão pra ver as novelas que ela adorava.. Luzinete se riu e disse que ia pensar... Conversa mais doida, essa de Honório... de repente, virar mulher de um homem só, com casa montada... mais um pouco ia estar freqüentando grupo de beatas de igreja! Ela riu de novo... Ah! esse Honório...
E Honório chegou e mandou chamar Luzinete – ela veio, meio com sono, noite nos braços de Mundico arriava qualquer mulher, mesmo as mais experientes... Mas veio, cheia de graça, sorriso aberto, se chegou pra Honório, pras suas urgências e necessidades...
Depois, espojado na cama, saciado, Honório viu uma garrafa de conhaque quase cheia...Levantou da cama, destampou e bebeu no gargalo mesmo... coisa fina, descia macio, quente...bebia e se fartava...
“Beba tudo, não, homem de Deus...essa garrafa é de Mundico...esqueceu aqui...”
“Se esqueceu, tá perdida – é de quem achar e eu achei - agora é minha!”
Luzinete se ria do descaramento de Honório, bebendo daquele gargalo, se adonando da bebida fina de Mundico...
E com a garrafa quase vazia, esparramado na cama, Luzinete enroscada no corpo, Honório perguntou, com voz arrastada de conhaque, se tinha pensado na proposta de casa montada, de viver pra um homem só... Luzinete, se rindo, disse:
“Olhe, meu nego, fico muito vaidosa com sua proposta, num sabe? mas posso aceitar, não – gosto de variação de homem na cama comigo... quero ficar amarrada num só...ainda não...quem sabe mais tarde, né? vamos continuar assim, meu nego, você vem, lhe dou chamego, mas dou pra outros também...”
Honório olhou pra ela, tudo turvo, envolto em conhaque e soltou:
“Pois se não vai ser só minha, de mais ninguém...” E antes que ela pudesse piscar, puxou peixeira do lado da cama e enfiou 15 vezes naquele corpo magrelo...
Depois, desatou a chorar e berrar, chamando atenção de Nalvinha e das outras meninas...alvoroço, correria, grito, choro, consumição...
Mundico entrou no quarto e viu Luzinete, numa poça de sangue e, na mesa do lado da cama, quase vazia, sua garrafa de conhaque...




sábado, 12 de fevereiro de 2011

O TELEFONE

Resolvi comprar telefone novo – desses com internet...afinal tenho que me tornar moderna, pois se até blog criei...
Entrei na loja – tem que pegar senha pra ser atendida – olhei meu  número e o daquela caixinha luminosa que acende e toca e vi que faltava muito pra ser atendida – aliás, como sempre...nunca peguei uma senha  que meu número fosse o próximo; sempre faltam, no mínimo. 15 pessoas pra serem atendidas antes de mim...
Fui perambular pela loja, olhando modelos de aparelhos, atenta aos preços – meu dinheiro não é capim de beira de estrada – cada aparelho mais poderoso que o outro...
Fiquei fascinada! fazem de um tudo – só faltam ensaboar nossas costas! ( aí ia ser um delírio...) Mas além dos preços salgados, eram tantas as funções com uma sucessão de siglas – pra mim incompreensíveis, estava mais pra sopa de letrinhas – nunca ia conseguir usar tudo.
Esse mundo virtual é novo pra mim, ainda me espanto e de nada adianta ter um foguete supersônico na mão se só sei conduzir carroça de jegue...
De repente meu olhar bateu num aparelho, estava lá, branco,  preço ótimo, sopa de letrinha menos variada... E aquele celular piscou pra mim! Ficamos lá, flertando, nos conhecendo... Ah, pra quem não sabe o que é flerte, aí vai explicação: na minha  juventude os namoros começavam com um flerte, olhar um para outro, de longe, até uma sutil aproximação física... Explico porque, naquela época, não se saía de casa, como hoje, já com “garfo e faca” na mão...
Então flertamos e chegou minha vez. Atendente gentil, mostrou aparelho, branquinho  (secretamente antigo sonho de consumo) e ligou telefone...tudo ótimo!
“ E como acesso a internet? “ – sim, porque essa era razão pra querer telefone novo, senão ficava com meu modelo antigo, quase uma BMV ((Brasília meio velha ), mas que fala e recebe... Sou do tempo em que era só isso que telefone fazia...
À pergunta sobre internet, a vendedora arregalou os olhos e me disse que ‘não sabia’... Eu ri, porque com certeza eu sabia menos que ela e todas as minhas esperanças em sair com celular novo, com pleno acesso à internet, repousavam nos ombros da gentil vendedora...
“Então, meu anjinho, estamos com um problema! Porque veja bem, eu mal consigo lidar com meu notebook, companheiro velho de guerra, pra mais de 3 anos... agora imagina essa coisa nova, cheia de ícones que, pra mim, são grego...”
“Mas aqui nós não somos treinadas pra isso...”
Boa vontade a menina tinha – foi, voltou, apertou mil teclas, combinações variadas – nessas alturas eu já palpitava, me sentindo meio pós-doutora, diante do desconhecimento dela... Afinal, se deu por vencida – e eu também – e me deu um número de telefone pra eu ligar de casa.
“Liga do seu telefone fixo, porque aí a senhora fica com o celular livre – eles vão dar o passo a passo e a senhora acessa a internet...”  Saí de lá confiante, pronta pra dançar um bolero telefônico e, enfim, ter meu novo bichinho de estimação cibernético...
Liguei para o tal número do “passo a passo”... atendimento eletrônico (nada me enlouquece mais! ), mil opções são dadas pra teclar – quando acaba de elencar o rol de opções, já me perdi e não lembro mais qual tecla devia apertar...mas há uma esperança...’digite zero para voltar ao menu inicial’... e lá vou  eu, de novo, para o menu... Se esse menu fosse de comida, eu devia pesar mais de 100 quilos, tantas vezes que acessei...
Quando consegui, afinal, ir apertando as teclas corretas, pensei ‘agora vem o passo a passo’... e recebo a seguinte frase: ‘sua ligação é muito importante para nós, agradecemos por chamar a.... ( operadora )’e...FIM DA LIGAÇÃO!
Ou seja, o passo a passo, virou um passo escorregadio, um trompaço, um tapete puxado e eu estarrecida olhando para o telefone fixo e para o celular inoperante...
Voltei à loja dois dias depois – nesse meio tempo, tentei de tudo com o celular, só faltei mandar benzer ou exorcizar, e nada... Na loja, depois da espera da senha ( é de lei ), sentei e contei meu drama para atendente  (outra, simpática, também ).
“Senhora, aqui nós não fazemos isso...”
“Está certo, meu anjo, mas,  por favor, me diz quem faz? onde? porque o passo a passo não funciona...”
“A senhora está vendo aquele telefone ali – apontou para um pedestal atrás de um vidro que, nessa hora, estava sendo usado por uma senhora – então, ali é o pronto  atendimento...a senhora tira o fone do gancho, eles atendem na central e vão lhe dar todas as informações...”
Esperanças renovadas, olhei para a senhora no telefone – cara dela de desalento derrubou minhas esperanças - chegamos a começar a conversar e ela me disse que estava ali há uma eternidade...
Passados uns 20 minutos, consegui pegar o telefone do pronto atendimento – SEIS tentativas, porque caíam as ligações em determinadas etapas – até retirar bateria e chip e recolocar eu fiz, com a ajuda da vendedora, agora a bonitinha que me vendeu o aparelho, visivelmente feliz em me rever...
Na 6ª vez que caiu o ‘pronto atendimento’, eu disse que queria falar com a gerente, supervisora, qualquer que fosse o nome da função da responsável...Veio uma mocinha, muito gentil ( todas são ) e me disse que ‘o telefone do pronto atendimento tinha sido quebrado por um cliente’... Isso me colocou com cabelos em pé! Cliente satisfeito não quebra telefone...e ela completou ‘aqui nós não fazemos configuração de aparelho...’
“E quem faz?”
“ A senhora tem que ir numa loja da operadora X...”
“Meu anjinho, eu ESTOU numa loja da X, isto é uma loja...”
“Não, senhora, isso é uma franquia...”
“??? franquia ou não, pra mim É uma loja – tem placa luminosa enorme na porta, vocês vendem aparelhos e linhas telefônicas...É UMA LOJA, SIM...”
“Não, senhora, lojas a senhora encontra nos seguintes lugares...( parêntesis pra se entender a localização das LOJAS – imagina que eu moro quase no oeste de Minas Gerais – as LOJAS ficariam no Oiapoque, no Chuí, em São Paulo – capital – e na fronteira mais oeste de Mato Grosso...) – nesses shoppings, continuou ela, a senhora encontra uma loja”
“Olha só, eu estou numa LOJA, num shopping...você está me dizendo que eu tenho que atravessar a cidade pra encontrar alguém pra configurar meu telefone?”
“Sabe senhora, aqui nesse shopping até existem esses configuradores, mas eles ficam 1 ou 2 horas nas lojas de cada operadora e depois vão pra outra...”
“Espera, deixa ver se eu entendi: você me diz que se eu não quiser atravessar a cidade, em qualquer direção, eu tenho que sair por esse shopping aqui, procurando um configurador de telefone que eu não conheço? uma pessoa que nunca vi? como é que vou achar?  meu anjinho, eu não estou numa gincana...”
“Mas senhora, é assim mesmo...”
“Não é, não! ...ERA assim, porque de agora em diante, pelo menos comigo, a configuração vai ser feita aqui, sim, e vou sair daqui com a internet ligada...”
O que mais me surpreendeu foi a calma que mantive todo esse tempo – passo a passo não funcionou, pronto atendimento com telefone quebrado por cliente insatisfeito, configurador que tem que ser encontrado com auxílio de bússola ( ou GPS pra ser mais moderno...)
“E se nós trocássemos o aparelho? Será que funcionaria?”
“É, pode ser.. .a senhora senta ali que vou pegar outro – só no estoque lá em cima – volto já”
Sentei feliz da vida- estava tendo atendimento personalizado!
Vem o novo aparelho – troca tudo: chip, bateria... nada! retorna para o ‘meu’...nada...
“Mas eu quero tanto atender a senhora...vou tentar mais...”
Nessas alturas, a vendedora simpatiquinha, do primeiro dia, já estava debruçada ao lado da sub-gerente...queria aprender...
Aperta tecla aqui, vai pra lá, volta, várias tentativas...e aparece outra vendedora...a sub-gerente chama e me diz ‘ela entende tudo de internet – agora a gente consegue...’
E a 3ª vendedora se debruça e, segurando seu próprio celular, vai informando os atalhos e teclas e a sub-gerente fazendo tudo e...voilà, telefone configurado, internet funcionando!
Feliz da vida, olho pra sub-gerente e digo ‘tá vendo, menina, agora você já sabe configurar...quando aparecer outro cliente aflito e perdido como eu, você está pronta...’
Ela olhou pra mim e respondeu rindo:
“Quem disse que aprendi? sou disléxica...não consigo assimilar nada que leio...tudo tem que ser explicado verbalmente! se a senhora pedir pra fazer de novo, não tenho a menor noção...”
Disléxica?? Como assim? Com tanta gente no mundo fui me deparar justo com uma disléxica pra configurar meu aparelho?
Bom, a sorte dos futuros clientes é que tanto a tal vendedora  simpatiquinha que viu tudo e aprendeu, como a outra que ‘entende tudo de internet’ estão por lá, senão, minha gente, quem for leigo como eu, prepare bússola ou uma mochila pra viagem, se quiser seu celular configurado...
E eu sobrevivi a tudo isso...passo a passo em falso, pronto atendimento despencado por causa de telefone quebrado por cliente insatisfeito, possibilidade de deslocamentos gigantescos ou gincana ‘encontre um configurador’ e uma sub-gerente disléxica...
Valeu ou não minha idéia de comprar um novo telefone?



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O MEU AMOR

O meu amor não é bonito, nem alto. Tampouco bronzeado ou musculoso. O meu amor não transpira vitalidade nem tem pele viçosa.
Um homem comum, anônimo na multidão, assim é o meu amor. Anda entre estranhos, desapercebido. Nada tem de extraordinário, mas assim é o meu amor.
E é porque, sem me conhecer, me ouviu, sem me ver, me enxergou, sem me tocar, me sentiu e tocou minha alma. Assim é o meu amor.
Cheio de medos, mas corajoso, com dúvidas, mas certo do que quer. Guerreiro forte que tem fragilidade à flor da pele.
Se aborrece e torce a boca, a mesma boca que se derrete em longos e molhados beijos. Boca macia, generosa, gulosa, mas que também sabe gritar e esbravejar... Assim é o meu amor.
Está longe, mas tão perto, á distãncia de um dedo...Inaccessível e todo meu...proibido, mas tão disponível.
O meu amor tem mãos suaves, mas vigorosas pra me abraçar. Um rosto sisudo que se abre num sorriso quando me vê.
O meu amor é assustado, sobressaltado, mas calmo e relaxado quando somos nós. Doce, terno, carinhoso, suave, olhos pingando mel, respiração leve no meu pescoço, como uma borboleta pousada ali.
E sendo comum, sendo anônimo, perdido na multidão, é o meu amor.
Simplesmente porque conseguiu encontrar, dentro de mim, a chave que dá corda na caixa de música que toca pra minha alma dançar! Encontrou sem saber que ela existia.
A chave mágica, mística, melodiosa que anima minha alma e aquece meu coração.
Encontrou apenas sendo quem é e como é – assim é o meu amor...
CONVERSA DE RUA

“Cara, há quanto tempo! Nossa...”
“Pô, nem fala, ando todo enrolado aí...mas me fala, quê que tem de novo?”
“Olha, foi muito bom te encontrar – você vai se o primeiro a  saber a decisão que tomei! Cara, tô super empolgado!...”
“Vai casar?”
“Que mané casar?  Ficou doido? Acha que se fosse casar tava tão entusiasmado assim, nessa alegria ?”
“Ué, sei lá – tem gosto pra tudo...mas fala aí, que decisão é essa?”
“Vou parar de fumar !”
“Hum...vai... sei... Por quê? Descobriu que cigarro faz mal pra saúde?”
“Qualé!  nada disso! Faz mal  é pro bolso! Cara  tava fazendo as contas e vi que o que eu gasto de cigarro por mês dá pra fazer meio mercado!”
“É, dá mesmo – isso sem falar na saúde, né? Todo mundo sabe...”
“Que  saúde o escambau!  Todo mundo vai morrer mesmo! Então, pelo menos fazia uma coisa que gostava...”
“Fazia? Quer dizer que já parou de fumar?”
“Hum, não, ainda não... mas vou, podes crer...”
“ E quando? Já decidiu?”
“Bom, tô em dúvida se  de uma vez, se vou diminuindo ou se compro esses trecos que anunciam na televisão...”
“Ah, isso é com você”
“ Cara eu vi um anúncio que se você parar de repente, teus neurônios enlouquecem! Já pensou que doideira?...é, to pensando em ir aos poucos – tá dando não, muito dinheiro “
“Agenor! Tudo bem?”
“Fala campeão! Otávio, esse é o Mário, trabalha comigo. Esse é o Otávio, amigaço, não encontrava faz tempo... a gente tá aqui batendo um papo...”
“E aí, Agenor, já soube? Acho que você saiu antes, mas o Almeida já avisou pra todo mundo que tu é o novo gerente, cara! Maneiro! Vai ser aumentado...vai pagar  rodada  pra todo mundo...”
Otávio olha pra um Agenor estatelado e pergunta
“Mas e aí, Agenor, quando é  mesmo que você vai parar de fumar? ...”

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

ESCOLHAS


Interessante como algumas pesquisas ( dessas de rua ) sempre se concentram em duas alternativas, como se não houvesse nada mais naquela área que pudesse ser questionado. É preto ou branco – cinza escuro, claro ou gelo...não existem...azul, amarelo, vermelho....nem pensar.
Dia desses o questionamento era no parceiro ideal: beleza ou inteligência. Minha primeira reação, como mera espectadora, foi responder: inteligência... Não sou adepta daquele velho ditado ‘beleza não põe mesa’... até porque beleza é muito bom mesmo ( não essencial ), mas que é bom ver alguém bonito, homem ou mulher, isso é uma verdade.
Mas pra mim, colocando nos pratos da balança beleza e inteligência, essa última tem mais atrativos.  Adoro conversar, falar, argumentar, ouvir novas opiniões – e tudo isso se consegue lindamente com alguém inteligente... Argumentos fartos, jorram como cascatas. Mesmo os inteligentes mais calados sempre dizem coisas interessantes...
E a beleza? Estou padecendo daquele estigma gigante que ‘o belo é burro’?  ( se for loura, então...eu sei quantas vezes ouvi essa frase ! por ser loura ) – confesso que tenho medo de me encaixar nesses preconceitos. O bonito foi mesmo feito pra ser visto, não pra ser ouvido, porque não teria nada entre as duas orelhas, a não ser cabelo ( de chapinha ou de cera modeladora ) ?
Passado o momento de resposta de espectadora, a do impulso, comecei a me questionar: será que conseguiria mesmo escolher somente entre essas duas alternativas?
O ser humano é absolutamente diverso, rico em emoções diferentes, variações físicas, intelectuais. Posturas diante da vida, coragem ou medo, timidez ou iniciativa, verdadeiro ou falso...
Pensei nas inúmeras pessoas que passaram pela minha vida: amigos, amores, paixões... Tão diferentes, provocando em mim emoções diversas, fortes algumas, fracas, outras tantas – algumas trouxeram alegria ao chegar, outras me deram alegria ao partir... E todas, apesar de tão diversas estiveram comigo, em momentos da minha vida...
Coisas tão opostas, mas, mesmo assim, em seus momentos, tão importantes. Pessoas bonitas e inteligentes tanto me fizeram feliz como me colocaram no fundo do poço de sofrimento. Outras não tão inteligentes, nem bonitas, conseguiram o mesmo...
Enfim, cada pessoa vai trazer pra outra aquilo que tiver pra dar – independente de ser bonita ou inteligente. Por quê tenho que escolher entre o belo ou inteligente? Por quê não posso simplesmente dizer ‘às favas essas alternativas.’ Quero alguém que me ame, que se derrame em mim, me respeite, seja parceiro, cúmplice – enfim forme uma dupla comigo e nós dois, então, vamos dançar o tango...
Alguém que sonhe e entenda meus sonhos, se encante e, por isso, entenda meus encantamentos – alguns diferentes, muitos iguais... Alguém como eu e tão diferente de mim – me completando e se completando nessas nossas diferenças e igualdades...
Beleza? Inteligência? Não escolho – coloquem um leque de opções na mesa – eu escolho o amor.
SOMBRA

Até na minha sombra encontram-se as marcas da minha vida. As árvores que  admirei, as chuvas que vi por dentro da janela, em tardes monótonas de domingo, as ondas que atravessei ou recuei, os cheiros que desfrutei, os dias brilhantes ou enevoados que vivi.
A felicidade de viver um grande amor, o desespero de uma perda, a expectativa de um emprego novo – tudo, tudo mesmo está impresso na minha sombra, com marcas tão acentuadas como em meu corpo e minha alma.
Minha sombra...  que é maior que eu, como se quisesse me tornar gigante, mais forte, resistente. À noite, fica invisível, mas presente, porque, como minha alma, vive dentro de mim, me integra. Sobre ela não tenho controle. Sobre a alma, sim. Posso acalmar, até conversar com ela, rindo ou chorando juntas.
Mas a sombra... ah, essa é independente, senhora de si, não partilha meus sentimentos, não chora nem ri comigo. Apenas fica ali, me seguindo  aonde vou...mas absorve tudo que se passa comigo e, como em meu corpo e minha alma, na minha sombra estão impressas as marcas da minha vida.
PRIMEIRA VEZ

“Cristina, tudo bem?”
“Oi, menina, você não morre tão cedo! Hoje mesmo estava pensando em você...”
“Pensando bem, eu espero,  né?”
“Sabe, eu tava lembrando  daquele dia que nós fomos almoçar e vimos aqueles dois gatos lindos, maravilhosos...lembra?”
“Se lembro?? Você acha que dá pra esquecer duas bênçãos daquelas? Dois deuses...mas é daí? Por quê lembrou de mim?”
“Acredita que eu dei de cara com um deles, aquele louro, liiiindo, numa exposição de fotografias?”
“Jura? E como foi? Conta tudo, todos os detalhes... falou com ele? Pegou telefone? Ele pediu seu telefone?... Conta, conta”
“Calma ! Primeiro eu olhei e não acreditei. Pensei: obrigada, Senhor, por colocar essa visão dos céus outra vez na minha frente!! Fiquei parada, estatelada, não conseguia quase nem respirar com medo que ele evaporasse... Aí, ELE me viu! Não te conto!! Ele riu pra mim! Quase desmaiei... Veio andando na minha direção, que nem um deus grego, olhando fixo e me perguntou:  ‘não nos conhecemos de algum lugar? ’
“Sei que isso é super batido, mas eu achei o MÁXIMO! “
“Conta mais! E aí ? Rolou o quê ?”
“Calma! Eu disse que a gente já tinha se visto naquele almoço, que ele estava com um amigo e eu estava com uma amiga. Ele me olhou fixo e disse:  ‘é, mas faz de conta que hoje é a primeira vez, tá ?’
“Quando ele disse isso, menina, senti um frio me subindo a espinha – sabe aquele arrepio que a gente sentia quando era adolescente...”
“Então não sei!!  Ah! que saudade desse arrepio... mais, conta mais...”
“Ele pegou um vinho pra nós e ficamos os dois olhando uma pro outro... a gente se  devorava...de repente, sem dizer uma palavra, ele pegou minha mão, me puxou e, sem falar nada, me levou pro carro dele...”
“Ui! Não me diz que foi no carro?!...”
“Que carro! Ele dirigia calado, segurando minha mão, me olhando de vez em quando, sorria e dava um aperto na mão...”
“E você? Quê você falava?”
“Que falar? Eu lá era louca de quebrar aquele clima, aquela magia...me sentindo seqüestrada por um homem de quem eu não sabia nada, não sabia onde me levava... só sabia que era muuuuuito lindo !...vou falar o quê? Sou louca?”
“Tá, ficou muda, tá certo, mas e ai?”
“Apartamento dele, nos amamos loucamente! Ele sem roupa é um  DELÍRIO! Foi uma fogueira – mãos, línguas, pernas, suor, cabelos, uma comunhão, uma coisa que nunca senti...”
“Nossa! Até eu tô arrepiada, me remexendo na cadeira! Me abana...”
“Depois nos vestimos, ele me levou de volta pra exposição, eu saltei e ele partiu...”
“COMO PARTIU ? Partiu, partindo? Foi embora? Te deixou lá plantada ... não deu nem telefone??”
“Eu não preciso de telefone – eu tive ele – inteiro, completo – sem palavras, sem nome, sem telefone...o que eu queria dele, eu recebi...e, afinal, quem sabe se a gente se encontrar outra vez, a gente não vai fingir de novo que é a primeira vez!...”