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Simone,


A luz que brilha nos meus olhos vem da minha mente, fervilhante de idéias, pensamentos, sonhos...através de meus dedos e mãos trago vida a esse turbilhão, colocando em palavras o que insiste em gritar dentro de mim...

Cada movimento das árvores bailando ao vento traz encanto e paz ao meu ser; cada pássaro que ouço da minha janela traz música à minha alma...Assim sou eu, dando valor a cada pequena coisa, tornando-a valiosa e importante!



Simone































sábado, 28 de maio de 2011


“Oi, dona Dalva, tá aí? “
“Entra Marlene, tô aqui na cozinha, filha, vem cá.”
“Nossa, que cheiro ma-ra-vi-lho-so!! lá de fora a gente já sente... ah, dona Dalva, feijoada igual da senhora...hum, nunca comi!”
Dalva ria, enquanto rodava entre a pia e o fogão, cortando lingüiça, carne seca, paio, lombo e outras coisas mais pra fazer a sua ‘famosa feijoada’.
“Senta aí, filha...olha se quiser tem café fresquinho na garrafa, fiz ainda agorinha, sabe, né, gosto de tomar um cafezinho enquanto cozinho.Vai, pega uma caneca e se serve...faz cerimônia não, menina...”
“Faço nada, a senhora sabe. Vou aceitar café sim, mas vim aqui saber se precisa de ajuda, posso fazer alguma coisa? Quer que corte a couve, descasque laranja?...” – falava enquanto pegava o café.
“Ah, filha, se quiser descascar as laranjas te agradeço, porque ô coisa chata ficar descascando essas danadas... – e Dalva dava risada – adoro fazer feijoada, nem me importo cortar todas as carnes, mas as laranjas... aff me tira do sério...”
Marlene pegou uma bacia, um facão afiado, sentou num banco e começou a descascar as laranjas... ali os aromas se misturavam, a feijoada, as laranjas o café e as duas tagarelavam, falando de tudo e de todos.
“Ixxi, Marlene, cê viu o cabelo de Kelly? que é aquilo, meu Deus, a menina tá com cabelo rosa? como é que pode sair com aquilo na rua e achar bonito?” e dava risada
“Olha, dona Dalva, agora é moda, tem cabelo de toda cor.”
Interrompendo, Dalva completou – “sei disso filha, afinal ando na rua, vejo as meninas daqui da comunidade... mas aquela menina ficou foi muito feia,,, branquela daquele jeito, com aquele cabelo rosa que chega doer nos olhos...” e dava risada – “podia ter escolhido outra cor...”
“É, mas vai ver gostou... fazer o quê? – dando uma pausa, continuou – e Robson, tá gostando do quartel? outro dia vi ele saindo, todo de farda, tá bonito que ele só...”
“Ah meu menino tá feliz, Marlene, graças ao meu senhor São Jorge, acho que vai fazer carreira lá dentro – levantava os olhos e as mãos pro céu – assim já fica com emprego, né filha, as coisas tão difíceis pra arranjar trabalho... não lembra você, mais de 3 meses parada...moça boa, trabalhadeira...”
“Nem me lembra desse perrengue... olha, tava quase desistindo e pegando qualquer faxina que aparecesse..  como é que ia deixar Tainá Elisabete sem comida? mas graças a Deus, agora tá tudo bem...”
“Filha, o pai dela não te ajuda em nada? nem pra comprar um pouco de comida? – dando uma pausa, continuou – olha não tô querendo me meter não, Deus o livre, cê sabe que não sou disso, mas fico vexada com cara dura de Wandislei, morando aqui, passa todo dia na frente da tua casa, nem entrar pra ver a filha, nem ajuda...”
“Oh, dona Dalva, quer saber? prefiro assim...com as companhias que ele passou a ter, por aqui...a senhora sabe... vive na birosca de Juninho, enchendo a cara...isso sem falar em outras coisas que prefiro nem lembrar...”
Dalva continuava atarefada com a feijoada, enquanto Marlene tomava o café e descascava laranja... e a conversa rolava solta
“Sabe, dona Dalva, se soubesse que ele ia mudar tanto, Deus que me perdoe, mas não tinha tido filho com ele não... parece um praga, de repente ele virou a cabeça, ficou outra pessoa... agora vive metido em briga, confusão,não sei como ainda nâo foi preso...”
“Aff, menina, vira essa boca pra lá, é pai da tua filha...”
“Não tô desejando, não senhora, só tô falando que com tantas que ele apronta, chega admirar não ter sido preso... eu lá ia querer pai de filha minha na cadeia? que é isso?”
Nisso, entra Robson, fardado... ”mãe, senhora tá aí? – chegando na cozinha vê Dalva e Marlene – oi Marlene, tudo bem? tá aí ajudando a mãe?” – enquanto dava um beijo na mãe e a agarrava pela cintura – “melhor mãe do mundo!! melhor feijoada do mundo!” e rodava com a mãe pela cozinha minúscula...
“Menino, me larga... qualquer dia desses cê me joga no chão, com essa mania de ficar me rodopiando...”
“Jogo nada, dona Dalva... seguro forte... já viu filho jogar mãe no chão?  - deu uma pausa – bom, vou tomar um banho, dar uma descansada que quero tá prontinho pra encarar esse feijão como merece...”
Robson sai da cozinha e volta logo depois...”mãe, comprou bebida? porque se não comprou, vou no Juninho, depois do banho...”
“Preocupa não, filho, tá tudo arrumado... vai tomar seu banho sossegado e descansa...”.- quando Robson saiu, Dalva disse pra Marlene –“filho de ouro, sabe que nunca me deu trabalho na escola, nem com amizade... uma benção... acho que é o pai dele que tá lá de cima olhando por nós...” – levantou os olhos e se benzeu.
Cada uma com suas tarefas, ouviram quando Robson saiu do banheiro e foi pro quarto, se vestir.
“Ô filha, acabou de descascar?”
“Ainda não...a senhora comprou muita laranja, parece que vem um batalhão...”
“Ah filha, se vem batalhão não sei porque não convidei, mas sempre aparece mais um e não gosto que falte comida... cê sabe, tem gente que já sabe dessa minha feijoada, de Cosme e Damião...promessa antiga, tava grávida do meu Robson... gravidez complicada, me peguei com os dois meninos... e prometi que fazia festa todo ano... aí resolvi fazer feijoada sempre no sábado antes do dia deles...mas é em intenção a eles, tá aí, meu Robson...e sempre aparece gente...” e voltou a rir
“É famosa essa feijoada... também, no capricho...”
Robson entrou na cozinha, já de bermuda, sem camisa e foi pro quintal, dizendo – “mãe, vou ver isopor com bebida, pra ver se tá tudo certo...”
“Eita que meu filho tá cheiroso! nossa, mais cheiroso que a feijoada...” Dalva e Marlene começaram a rir...
De repente a porta da frente da casa abriu com violência e os gritos ecoaram pela casa
“Marlene, sua cachorra, cadê você? aparece, vagabunda...” os berros de Wandislei explodiam na sala... Marlene e Dalva correram pra sala e deram de cara com um Wandislei totalmente bêbado ( naquela hora do dia, já bêbado...), que balançava no meio da sala e berrava
“Sua cachorra, ordinária! então tá namorando Claudinho, é? tá de esfregação com ele, vagabunda? mãe de filha minha não fica de agarramento com homem não!” –os olhos completamente turvados pelo álcool, avançou pra cima de Marlene, despejando socos e pontapés na moça que tentava se defender, sem conseguir.
Dalva começou a gritar, pedindo socorro e mandando que o bêbado parasse... mas ele nem ouvia, alucinado pela bebida e berrava
“Caolho me contou, lá no Juninho, que te viu beijando Claudinho... tá pensando o quê? isso não vai ficá assim não...te cubro de porrada, vagabunda e depois passo ele na ponta da faca...” – gritava espumando de raiva e batia em Marlene...
Robson veio correndo do quintal, com a barulheira e tentou segurar o bêbado, se atracando com ele
“Pára, Wandislei, tá louco, cara... vai tomar um banho, esfriar essa cabeça...” – enquanto afastava o alucinado de Marlene
Mas a força do bêbado triplicou e ele começou a  agredir Robson, enquanto berrava
“Não vem defender vagabunda não! não é assunto teu,,,  é mulher minha... ou cê também tá comendo ela?” – e soco e pontapé voando pra todo lado...
“Pára com isso, já te disse...não quero te bater...vai embora, toma teu rumo...”
Nessas alturas já tinha gente entrando pela porta, pra ajudar a segurar o bêbado enlouquecido de ciúmes... mas antes que alguém pudesse fazer qualquer coisa, Wandislei virou corpo, pegou o facão que Marlene usou pra descascar as laranjas e cravou fundo no pescoço de Robson.
A gritaria na casa, de repente, parou... silêncio total... só se via Robson com  a mão no pescoço, segurando a faca, cambaleando pela casa, os olhos arregalados, como não acreditando no que tinha acontecido...
Esse cambalear foi acompanhado por todos num silêncio de terror que foi interrompido pelo berro alucinado de Dalva “ NÃO!!!!! MEU FILHO, NÃO!” e se atirou pra ele, amparando e deitando no chão, coberta pelo sangue do filho que encharcava tudo.
Robson morreu 5 minutos depois, ainda no colo da mãe que uivava de dor e horror... naquela casa só se ouviam soluços baixos das pessoas e os gritos alucinados e lancinantes de Dalva, perdendo seu filho no dia em que pagava promessa feita pra que ele nascesse...



EU  QUERIA SER POETA

Eu queria ser poeta, fazendo versos harmoniosos, rimas, tecendo redes de histórias, enredos, falar de amor, paixão, saudade, felicidade, dor na partida, alegria no retorno, da vida cotidiana, coisas triviais, familiares, porque são domésticas e temos familiaridade com elas, falar de abrir minhas asas, voar, deixar meus sonhos vagarem, areia escorrendo entre os dedos.
Falar de noite de luar, de mares azuis, campos repletos de flores,sinfonia de cores, brisa suave no corpo e cabelo. Falar de conversas de bar, um novo jeito de abraçar, de falar por falar, amigos antigos, memórias revividas...
Fazer minhas histórias de fantasias, de desejos, de deslumbramentos, de surpresas, de afastamentos... queria fazer versos de coisas simples,  encontrando a palavra certa , contar emoções, sensações, numa cadência simétrica de sílabas que lidas remetem ao ritmo cadenciado de nosso coração.
Como eu queria ser poeta, dizer que na sedução se encontra minha perdição, a idade aumenta minha saudade, sem sofrer não consigo viver. A vida sem amor é vazia, mas plena de dor...cada cantiga que ouço trazem de volta minha infância, época em que tinha esperança de ser feliz, tudo era uma grande ciranda...
Não consigo ser poeta, não consigo rimar, versejar. consigo sonhar e ansiar, por um amor sem dor com muita cor, um beijo de desejo, um afago mesmo que de lampejo...

quarta-feira, 25 de maio de 2011

PRA QUÊ TUDO ISSO AINDA?


sinceramente, ouvir uma música, dançar de rosto colado, deslizando pelo salão é tudo de bom... ainda mais quando a gente está apaixonada...hum, fica tudo lindo... pois é, ontem eu estava puta com você, lembra? me deixou plantada na porta do cinema... mas de noite...veio todo derretidinho, melosinho, trazendo flores... e fomos jantar...
E depois do jantar, fomos dançar, música romântica, dois pra lá, dois pra cá...rsss e agora , tô eu aqui, como uma boboca, toda lambida de paixão por você, de novo... mulher é um bicho esquisito, mesmo...leva um rabo de arraia, despenca, mas se passar mão na cabeça, fizer um afago...pior que cachorro abandonado - já conquistou...se trouxer flores, então!! aff, aí mesmo que derretimento é total...
agora vou pro trabalho, com essa cara melada, esse sorriso no rosto, esse olho brilhando e tudo isso vai durar até a próxima despencada...porque ela vem...ah, vem mesmo...
às vezes fico pensando no início do nosso namoro – era tudo tão bom, tão alegre, tão românticoooo.... acho que com todo mundo é assim... o problema é que o tempo passa e as coisas vão mudando, a gente vai mudando – sei lá, acho que a gente meio que se acostuma um com outro, já consegue até saber o que o outro vai dizer ou fazer...
sabe, perde aquela surpresa, aquela coisa inesperada...acho que é assim com todo mundo...lembro das nossas viagens...algumas tão doidas...aquela com a estrada toda de terra, com cada buraco gigantesco, carro afundando, a gente morrendo de medo de enguiçar – a gente estava no meio de nada! – e aí a gente chegou na gloriosa cidade...
lembra da nossa cara? Era UMA RUA só, chão de terra batida, cheia de buracos e Mercedes parados nas laterais... e a gente com cara de idiota, olhando aquilo tudo, sem entender como tanta gente rica gostava tanto daquele lugar??? tinha nada!!! um frio do cão, você passava a noite tentando manter a lareira do quarto do hotel acesa e nem com ela e 3 cobertores a gente conseguia se aquecer...
e a gente dizia que essa seria nossa “lua de mel”...como a gente ria... que lugarzinho ferrado a gente foi arranjar...já sei, não precisa dizer, fui eu que escolhi no guia de viagem... mas a descrição era de um paraíso na terra... terra tinha e muita, mas o paraíso... lembro que a gente voltou antes do prazo – pagamos 5 diárias ( super caras ) e nos mandamos no terceiro dia...
e a noite que a gente foi comer fondue? – também era só isso que tinha pra comer lá... lembra do casal na mesa do lado que pediu o de carne e quando o garçom trouxe jogou TODOS OS PEDAÇOS DE UMA SÓ VEZ!!!!!!!! lembra da correria da gente?? todos os clientes correndo, apavorados, com a chiadeira da vasilha... e as gargalhadas, depois...nossa, a gente se dobrava de rir!!!!
ríamos à toa, de tudo, coisas mais bobas...alegria estava em nós, simplesmente por estarmos juntos...isso bastava... me pergunto onde foi parar tudo isso, onde fomos parar nós? não existiam despencadas – não provocadas por nós – nem recaídas, porque um era o outro...
agora eu me arrumo toda, pra você...e não aparece ou, quando chega, nem percebe... tudo isso, pra quê?
HISTÓRIA FELIZ

Já ouvi  inúmeras vezes que vida feliz não tem história. Se a gente analisar bem, vai ver que as grandes obras, clássicas ou populares, sempre trataram e tratam de algum tipo de tragédia, maior ou menor, mas sempre o sofrimento humano está presente.
Seja um amor proibido ( quem se esquece de Romeu e Julieta ), não correspondido, uma traição, uma perda de alguém , de algo, uma disputa por alguma coisa. Sempre encontramos um vilão que vai colocar obstáculos para que a mocinha ou o mocinho encontre  a felicidade, alcance o bem que busca.
História sem vilão, sem ódio, sem traição, maldades humanas não é história. Até as novelas na televisão alcançam picos de audiência quando alguma vilania vai se concretizar. Os próprios atores afirmam, sem pudor, que é muito mais interessante interpretar o vilão, o personagem mau, porque permite maiores nuances...
O ser humano realmente gosta de ver a dor alheia, saboreia quando o outro é traído, humilhado... Existe uma morbidez nessa valorização da dor, da tragédia, do desamor. A luta entre o bem e o mal  incendeia mentes e corações.
Sempre me perguntei a razão de vidas felizes, narrativas felizes, histórias felizes não fornecerem uma boa “história” – encontrei várias respostas – acho que nenhuma correta. O ser humano se regozija com a dor do outro  como forma de se sentir aliviado por não estar sentindo a mesma dor?  Somos todos mórbidos  mergulhados à procura de nutrientes pra essa morbidez? A dor alheia significa o fracasso do outro e nos dá uma passageira sensação de vitoriosos? Não consegui uma resposta – fiquem felizes, eu falhei!
Mas verificando que desde os contos infantis ( que são, na verdade, contos de terror) até os mais clássicos autores, todos tratam e retratam a tragédia, a dor, o sofrimento, o desamor das pessoas, resolvi criar uma história feliz:
Era uma vez uma menina bonita que vivia muito feliz numa linda casa até crescer, casar com um belo príncipe e ter filhos maravilhosos. Durante toda sua vida só viveu momentos de felicidade. FIM.
Como é pequena uma história feliz!
AMOR DE OUTONO

Leonor caminhava pela praça, em direção ao banco onde, mais uma vez, ia encontrar Osvaldo. Hoje, por ser 5ª feira, sabia que ia receber uma rosa – ele mantinha esse hábito desde que se conheceram, há dois anos atrás, numa 5ª feira, naquela mesma praça. A surpresa da flor, ficava na cor – cada semana uma diferente e ela sempre ficava na expectativa, tentando imaginar a “cor” da semana...
Cabelos brancos como neve, andar lento, com seus 75 anos, ela se arrumava, duas vezes por semana, pra encontrá-lo – 2 anos esse hábito se mantinha, 2 anos os encontros aconteciam, somente sendo interrompidos em dias de chuva – impossível ficarem num banco de praça, debaixo de chuva...
Mas Osvaldo logo encontrou uma alternativa pra dias chuvosos – ali mesmo, bem perto da praça, havia uma lanchonete, simples, mas acolhedora o suficiente pra que se sentissem bem...
Onde quer que acontecessem,  esses encontros traziam aos dois uma alegria, uma renovação. No primeiro dia, por acaso, sentaram-se no mesmo banco – ficaram ali, sem se falarem, apenas olhando as pessoas, sentindo o vento leve no rosto, ele lendo jornal, ela com um tricô na mão. Levantaram quase ao mesmo tempo, cada um em sua direção.
Sem combinação, dias depois, voltaram a se encontrar no mesmo banco – sorriram um pro outro, num gesto de reconhecimento tímido, ele lendo jornal, ela com o tricô. Em determinado momento, ele dobrou o jornal e fez um comentário sobre alguma coisa banal – ela interrompeu o tricô, deixando sobre o colo, respondeu e ali começaram uma conversa picotada de comentários gerais.
Aos poucos, semana após semana, se encontravam, agora já mais próximos, se conhecendo, os encontros marcados e esperados pelos dois. Um dia, ele apareceu com uma rosa – amarela – e entregou dizendo que simbolizava o dia da semana em que se conheceram – aquele dia, da primeira vez que sentaram no mesmo banco... ela se encantou com a gentileza dele, e demonstrou com um sorriso e um olhar caloroso.
Os dois com os cabelos brancos, ele com seus 80 anos, andando apoiado numa bengala, mas sorriso aberto e rosa na mão ao encontrá-la. Trocavam confidências, sonhos realizados, outros nunca alcançados, sucessos, frustrações, alegrias, perdas.. .a cada encontro, mais próximos ficavam... ali nasceu um amor, partilhado somente em sentimentos, emoções, carinho, convivência...somente os dois sabiam desses encontros, desses sentimentos... nunca  partilhados com as famílias, apenas reservados a eles mesmos...
Do outro sabiam apenas o primeiro nome – nada mais – nem endereço, telefone, nada disso – a vida deles se resumia a esses encontros – aquele era o mundo que haviam criado pra eles e só os dois sabiam de sua existência...
Como fazia há tempos, Leonor caminhou em direção ao banco da praça – vazio,  Osvaldo não havia chegado. Estranhou, porque era ele que sempre esperava por ela... Sentou-se e esperou... ele não veio... nem naquele dia, nem nos outros...
Por semanas, ela continuou vindo, esperando por ele e sua flor que jamais chegaram...Os olhos dela, cercados de rugas, que antes brilhavam tanto, começaram a perder o brilho, ficavam perdidos, olhando aquela praça que permanecia tão igual, como igual era o banco, mas que pra ela eram tão diferentes, porque faltava ele...
Um dia, voltou e lá estava ele, não no banco, mas numa cadeira de rodas...com uma flor na mão e um sorriso no rosto...olhar de saudade que a envolveu por inteiro, fazendo bater forte dois corações cansados que se tornavam jovens pelo reencontro.
Ela sentou perto da cadeira e, depois de receber a flor – vermelha – acariciou de leve as mãos dele, marcadas pela idade, assim como as dela, mas cujo toque lhes era tão familiar...
E nesse dia falaram do amor imenso que sentiam um pelo outro, da necessidade de estarem juntos, da aflição da ausência – cada um sentiu do seu lado, mas ambos sentiram... e a partir daí, nunca mais se separaram, partilhando cada momento com plenitude porque sabiam como era efêmera essa convivência. Continuaram indo à praça, ao que chamavam de “nosso banco”, mas chegavam e partiam juntos,  mesma direção, ela segurando uma flor, um dia na semana.
AMOR SOFRIDO
O sopro do vento em meu rosto me acordou do sonho. Levantei os olhos e percebi um mundo à minha volta, me trazendo pra realidade. E então percebo que teu silêncio me comove, tua ausência me castiga, tua indiferença me atormenta.
Queria não te amar tanto... queria poder te ver e não me sentir afogada nesse amor enlouquecido, porque é só meu...te olhar e não te tocar, estar perto e não ser vista...tudo me consome, me arrebenta, dilacerando cada pedaço de mim...
Sentimento sofrido, saudade imensa do que nem tive, mas sonho, iludida, um dia ter. Chorar não acalma, o soluço fica preso no peito e não há como resgatar o fôlego que permanece suspenso no ar, esperando que eu retome a sanidade. Tua partida levou contigo um pouco de mim, tua indiferença corroeu minhas entranhas... nada mais penso, nada mais sinto, nada mais quero – penso que nem mesmo a ti quero mais... a dor que me causaste é tão grande que supera meu amor, minha ansiedade, meus sonhos e loucuras...
Por te amar tanto, de tanto te querer...deixei de te amar e de te querer...consumida por esse amor, esse desejo, essa volúpia, tudo se esvaiu como uma nuvem na minha frente – em vão tentei segurar, na esperança louca que ainda me aquecesse, mas percebo que minha vontade, a necessidade de te amar se foram, pisadas como folhas no chão...não resistiram à tua indiferença, ao teu desamor, à tua ausência emocional...
Pudesse teria entrado no teu corpo, visitado teu sopro, teu peito, ocupado teu interior – loucura de chegar às tuas emoções, tuas sensações, teus sentimentos, como se fossem concretos – pois pra mim eram, de tão viva essa minha entrega, nunca antes sentida, nem vivida...
De tanto te amar, te desejar, te querer... morri consumida por ti...
CABELEIREIRO AOS SÁBADOS

Poucas coisas são mais apocalípticas que um salão de cabeleireiro feminino aos sábados. Uma insuportável mistura de sons e odores      atordoantes, infernizam a vida, o humor e qualquer perspectiva de um bom programa à noite. Mas ainda assim, os salões vivem superlotados, com uma energia de expectativa suspensa no ar.
Raras as mulheres que estão ali somente porque trabalham a semana toda e só dispõem desse dia pra fazer unha ou cuidar do cabelo. Grande parte da freqüência é de mulheres se produzindo pra alguma festa ou evento.
E as conversas rolam soltas, algumas aos gritos pra poderem superar o som alucinado dos secadores que funcionam a todo vapor – não é metaforicamente falando...
Bandejas com café, biscoito, copos de água rodam o salão, servidas por atendentes entediadas e atordoadas...cabeleireiros disputam com manicures algum espaço melhor junto da cliente; essa, por sua vez, se retorce na cadeira, interessadíssima na conversa com a cliente da cadeira ao lado, não querendo perder qualquer detalhe da conversa picante que está sendo contada...
Porque se há um lugar em que as mulheres se soltam é em salão de cabelereiro – já começa pelo profissional, que além das madeixas, deve entender, também, de psicologia e do universo feminino. Naquelas cadeiras são ditas coisas que às vezes nem confessadas aos espelhos domésticos...
Não sei o que acontece – parece que as mulheres, ao cruzarem  a porta do salão, se despem de suas defesas e, da mesma maneira que entregam seu cabelo, também entregam seus dramas, alegrias, frustrações àquele profissional... Fazendo uma ligação meio “psicanalítica de botequim” seria como se uma mulher, ao entregar seu cabelo àquele profissional confiasse tanto nele a ponto de lhe contar seus segredos os mais íntimos.
A relação da mulher com seu cabelo é digno de nota – eu diria até que, se fosse feito um estudo mulher / seu cabelo ( se é que já não foi feito – não sou tão letrada assim ), coisas bem interessantes poderia surgir.
Das minhas parcas e pobres observações já pude concluir algumas coisas interessantes, segundo minha ótica – nunca pretendi ser dona da verdade – apenas relato o que presencio e minhas conclusões, que são somente minhas, sem qualquer base especial. Algumas mulheres têm uma relação simbiótica com seus cabelos – já presenciei cenas incríveis – mulheres que ficam de alhos arregalados, quase em transe, quando o cabeleireiro pega a tesoura e elas pedem pra ‘cortar UM DEDO SÓ’... quase com a respiração suspensa.. . outras  que chegam e pedem pra cortar ‘MAS NÃO MUITO’... o que é muito? já vi mulheres quase chorando ( algumas choraram mesmo ) porque resolveram cortar o cabelo – razão? desconheço, tanto do choro como de cortar...
Uma das mais engraçadas foi uma moça, jovem na casa dos 20 anos, que chegou e pediu pra cortar ‘CURTO...MAS NÃO QUERO NEM OLHAR...’ e tampou o rosto com as mão e ficou assim o tempo todo... era visível o nervosismo dela, como se estivessem arrancando um pedaço de seu corpo... Quando acabou o corte, tirou as mãos e se olhou maravilhada no espelho, abrindo um grande sorriso...
Nesse momento, ultrapassado o pânico, aproveitei e disse pra ela ‘não fica assim não.. .cabelo cresce de novo... em 6 meses você estaria como entrou aqui’ – ela me olhou como se eu estivesse dizendo algo de super novo...
Salão aos sábados só em caso de extrema necessidade, mas extrema mesmo – acho que nem casamento na família justifica minha ida até lá nesse dia. E foi num desses raríssimos dias que vi uma noiva, a mãe, a irmã e uma das madrinhas... foi uma das coisas mais bizarras que já presenciei...
A noiva, cujo cabelo longo era tão liso de causar inveja às várias chapinhas, queria um cabelo com cachos, meio soltos... a mãe dela queria, além do cabelo, maquiagem e a irmã queria ‘algo diferente’... casamento marcado às 8 da noite, no centro da cidade...
A madrinha, menos exigente, foi a primeira a ser arrumada e despachada, seguida da mãe, penteada, maquiada e despachada porque estava histérica com as duas filhas que nunca estavam satisfeitas – isso é, a irmã, porque a noiva teve seus ‘cachos’ refeitos umas 5 vezes -  nunca ficavam no lugar por mais de 10 minutos...
A profissional já estava suando, literalmente, quando outra veio ajudar e começou a atender à noiva, deixando a irmã com sua colega suada. Da cadeira onde eu estava, olhava o relógio, tempo passando e nada de concreto acontecendo... Nessas alturas há muito tempo eu já estava liberada, mas queria ver o final apoteótico e perguntei ‘ a que horas é o casamento?’ a noiva respondeu ‘às 8’, ao que a profissional que veio atendê-la emendou meio de lado pra mim ‘ ...da manhã...’ eu dei uma gargalhada estrondosa...
Resumo: a noiva e seus cachos ficaram prontos antes da irmã enjoada – a noiva saiu voada pela porta, às 8:15,  gritando pra irmã ‘ vou arranjar outra madrinha pro seu lugar’...  afinal,  às 9 da noite a irmã se deu por satisfeita  (?) e os profissionais que ainda estavam por ali, despencaram nas cadeiras e começaram a rir, misto de nervoso, cansaço e raiva...
Pra quem gosta de tumulto, barulho ensurdecedor e confusão, nenhum lugar é melhor que um salão de cabeleireiro em um sábado.



sábado, 21 de maio de 2011

AMOR ARDENTE

Marcelo abriu os olhos e se deu conta que estava deitado em posição fetal – todo encolhido na cama. Na hora se deu conta que aquela posição física expressava seu interior.
Há dois dias vivia um tormento ininterrupto. Imaginava se sua fisionomia revelava suas angústias e todo o desespero que começou a sentir na manhã de antes de ontem. Lá pelas 10 horas da manhã foi chamado á sala do Diretor e recebeu o comunicado que ia ser transferido. O rosto do Diretor expressava uma grande alegria e foi com grande entusiasmo que comunicou a Marcelo seu novo lugar de trabalho.
Quando ouviu o nome do lugar, Marcelo sentiu um frio subindo pela espinha, suas pernas falsearam, sentiu-se empalidecer. Mas o auto-controle desenvolvido rigidamente ao longo dos anos, a disciplina estrita em que vivia fizeram com que sua reação não durasse mais que 2 ou 3 segundos...
O entusiasmo do Diretor era visível...nem mesmo notou a rapidíssima reação de Marcelo...continuou a falar com alegria...
“Então...fico feliz em poder dar essa notícia a você...voltar pra sua cidade natal, ficar mais perto de sua família, de seus amigos... não é sempre que se consegue esse privilégio, mas seu esforço e dedicação ao trabalho contribuíram pra que você se destacasse e, como sei onde você nasceu, não tive dúvidas em indicar você pra essa transferência...”
Marcelo intimamente agradeceu essa grande explicação do Diretor – teve tempo de assimilar a notícia e se preparar pra responder, como esperado...
“Sim, sem dúvida, grande notícia... fico muito agradecido por ter se lembrado de mim, embora pense que existam outros tão melhores que eu que poderiam ocupar essa vaga...” – deixou a sugestão suspensa no ar, esperando que o Diretor considerasse que ele, Marcelo, não ficaria insatisfeito se outro fosse o indicado...
“Nada disso, indiquei você e assim será...claro que temos outros tão qualificados quanto você, mas o que pesou a seu favor foi, exatamente, o fato de ter nascido lá... então, está resolvido, vaga é sua, trate de começar a arrumar sua mudança que até o final do mês, você assume seu novo posto!”
Desde aquela conversa, Marcelo se consumia por dentro, angústia, desespero, dúvidas, ansiedade, alegria por voltar à cidade – enfim uma grande ciranda de sentimentos e emoções tão contraditórios
Decisão tomada...não adiantava ficar em posição fetal na cama...tinha mais que levantar e começar os preparativos da transferência. Bagagem pessoal, pouca coisa – local pra ficar já providenciado pelo Diretor – ia substituir alguém – era uma “casa funcional” como costumavam brincar... Só que ele não estava com nenhuma disposição pra brincadeiras...
A volta à cidade natal....sonho buscado por tantos, pesadelo pra ele...apesar da família morar ainda por lá, veio adolescente estudar na cidade grande e ficou, começando vida profissional.
Saiu de lá, mas lembrava bem da época em que se transformava de criança em adolescente, de sua amizade com Roberto, colega de escola, morando na mesma rua, suas mães amigas... brincadeiras inocentes que, pouco a pouco foram se tornando mais íntimas, mais sérias até ambos explodirem, alucinados, reconhecendo o amor, a paixão que sentiam um pelo outro...
Por mais de 4 anos viveram esse amor escondido, fingindo na frente das pessoas, agüentando ser apresentado a várias “candidatas” à namorada por sua mãe...sempre saindo pela tangente...
Longas conversas com Roberto, abraçados, em seu “esconderijo” ( uma gruta afastada que ninguém visitava)...ali vivam seu amor ardente, ali trocavam carícias, confidências, lágrimas de desespero por não poderem viver esse amor em sua plenitude... Marcelo sendo engolfado por aquele amor avassalador que a tudo consumia, sentindo em Roberto iguais reações, misto de ternura, paixão, amor e angústia...
Marcelo ia partir em breve – ambos sabiam – Roberto ficaria. Algo definido desde sempre, buscado por Marcelo, muito antes de descobrir o amor com seu amado/amante...Roberto nada dizia, não interferia – queria-o por inteiro, sem dúvidas...
A última vez que estiveram juntos, antes da partida foi uma tormenta pra ambos – amor alucinado, beijos,braços, línguas, pernas se enroscando, arfando nos braços um do outro, como se quisessem deixar impresso, na pele um do outro, esse amor imenso, gigante, maior que eles... paixão misturada com lágrimas, com momentos de silêncio, um nos braços do outro, pensando no que estavam vivendo e no que viria...
Marcelo viajou, Roberto ficou. Sem correspondência, sem telefonemas, sem contato por 9  longos anos. Aquele jovem que partiu, naquele dia, agora era um homem, respeitado, responsável... notícias de Roberto as tinha  vez por outra quando a mãe vinha visitar e fazia um ou outro comentário...nada especial, apenas um cruzando com outro na rua, rápido cumprimento...nessas horas, Marcelo explodia por dentro, sentindo que o amor continuava o mesmo, a boca seca demonstrava o desejo que queimava seu corpo – tudo voltava, mostrando que tudo era como antes – mesmo amor, mesma paixão, mesmo desejo, mesmo carinho, a mesma vontade de viver plenamente com seu amado...
Agora a volta à cidade natal. O tempo passou rápido, chegou dia da viagem – coração de Marcelo descontrolado no peito, porque sabia que era questão de dias ficar frente a frente com Roberto – ele ainda teria aquele vulcão dentro dele? ainda ficaria com olhos transbordando desejo, amor e paixão? ou estaria distante, apagado aquela maravilhosa, inesquecível história de amor? estaria casado ou mesmo teria encontrado outro a quem amasse, a quem abraçasse, a quem se entregasse?
A família o recebeu com festa – almoço com mesa farta – até as tias distantes vieram – afinal mais de 9 anos, merecia comemoração à altura, ainda mais vindo transferido por merecimento...mãe orgulhosa, olhava pra ele, através da mesa, pensando ‘esse é meu filho, meu tesouro’...
O pai questionou por que não ficava morando com eles – argumentou que havia a “casa funcional’ ( e rindo explicou o que era ) e que seu Diretor esperava que ele a ocupasse – mas agora morando tão perto, almoço de domingo presença garantida – pai e a mãe se olharam, orgulhosos e satisfeitos...
Marcelo se acomodou na casa nova ( a tal ‘funcional’) e se preparou para começar a trabalhar no dia seguinte. Anoiteceu e saiu pra espairecer um pouco, rever a cidade – pelo menos o centro, a praça – reencontrou pessoas, parou pra conversar com algumas, relembrando tempo de adolescente... todo tempo seus olhos varriam em volta, à procura de Roberto...nem sinal...
Quase de forma inconsciente, se viu andando pra gruta, lembrando das incontáveis vezes que fez esse caminho pra encontrar Roberto – ansioso na ida, angustiado na volta... hoje, a mesma ansiedade tomava conta dele...queria ir até lá, sentar e reviver as emoções, a paixão, o amor...desde que se separaram Marcelo nunca mais teve um único amor, como se quisesse preservar seu corpo, mantendo em seu ser  aquela magia vivida com Roberto...
Chegou à gruta, sentou-se na entrada e ali ficou... não queria entrar, não sozinho... a ausência de Roberto seria um peso gigantesco – bastava ficar na entrada, revivendo, relembrando... começou a chorar baixo, as lágrimas escorrendo pelo rosto, quase sem sentir, uma angústia subindo pelo peito, tomado conta dele todo...
“Por quê você chora, amor meu? Agora que você voltou, não precisamos mais chorar...” – Roberto abraçava-o pelos ombros, beijando sua nuca...
A explosão entre eles, derrubou esses 9 anos de separação! Como dois alucinados se consumiram em amor, paixão, desejo, saudade, expelindo toda angústia, todo sofrimento dessa ausência... abraçados, depois, choravam, no braço um do outro, por saudade, por felicidade e também por angústia, sabendo que continuariam se encontrando às escondidas, obrigados a manter invisível esse amor lindo, louco...Quase amanhecia quando se separaram...beijo, lágrima, olho no olho, um derramado pelo outro...assim  era o amor deles...quase sublime, pensava Marcelo...
Domingo, missa das 10, igreja cheia, hora da comunhão. Roberto se perguntava se teria coragem de comungar, com todo aquele amor explodindo em seu peito, aquele desejo consumindo, seu corpo e sua alma totalmente tomados por Marcelo e o amor imenso dos dois...
Entrou na fila, junto com os outros... quando chegou perto do altar, estendeu as duas mãos em concha pra receber a hóstia e levantou os olhos pra Marcelo que a entregava a ele, com um olhar de amor incondicional...



terça-feira, 17 de maio de 2011

AS FORMAS DE AMAR

Cantigas de ninar, acalantos, afagos, carinhos... esse nosso primeiro contato com o mundo...vamos percebemos através de sons e tatos e aqueles toques suaves e as canções sussurradas em nossos ouvidos nos trazem segurança e conforto.
Crescemos e vamos sendo apresentados às várias formas de amar: pais, irmãos, filhos, amores, amantes, família toda, colegas de rua ou de escola, amigos... Nesses contatos estabelecemos laços que vão durar mais ou menos tempo. Alguns nos trarão alegrias imensas, intensas... outros, grandes decepções, tristezas...assim é a vida – variadas pessoas, variadas formas de amar.
Nós mesmos mudamos, e muito, ao longo a vida - um dia perdidamente apaixonados, algum tempo depois, sequer reconhecemos a “paixão”... ‘amigas para sempre’ que não sobrevivem a um verão...
E assim vamos nós, ao longo da vida, querendo fazer de cada encontro, de cada pessoa, um “para sempre”, nos esquecendo que nem nós mesmos somos ‘para sempre’... nossos  interesses mudam, por opção ou imposição, pessoas novas chegam, outras partem, mas nós permanecemos, acolhendo e nos despedindo, algumas vezes nos afastando...
São tantas pessoas, tantas formas de gostar, de amar... umas profundas, outras superficiais, efêmeras, algumas irradiando alegria, calor, felicidade, outras que, passado esse primeiro encantamento, se transformam em dor, desilusão, decepção...no entanto, são formas de amar, de gostar...porque, ainda que por um brevíssimo espaço de tempo, o gostar ali se instalou, meio sem pedir licença, abusado que é, refastelou-se em nosso colo, bem acomodado, mesmo sabendo que iria ficar por pouco, muito pouco tempo...
Existe o amor eterno? o amor incondicional? confesso que, entre humanos, jamais o conheci... já escrevi antes que o conheci, sim, com minha gata, Tutti Tutti, durante dezesseis maravilhosos anos... mas entre humanos???
Somos mutáveis, somos mutantes, somos humanos, passíveis de humores, defeitos, alegrias, melancolia– tudo isso nos leva e nos traz a diferentes formas de amar –intensamente ou apenas de passagem, mas o afago, o aconchego, o acalanto sempre se faz presente, em qualquer relação, com nomes diferentes, necessidades diversas, intensidades variadas e durações múltiplas, mas sempre, é um gostar, é um amar...diferente, mas amor é e sempre será amor, não importa quanto dure, nem quão intenso seja, ele apenas é....

segunda-feira, 9 de maio de 2011

SORTE

alea jacta est
vou embora pro nordeste
encontrar um cabra da peste
e quero que me moleste

quando eu disser que sim
não pense que vai ser o fim
porque vou ouvir clarim
mais forte que de querubim

pra viver um amor louco
faço nada de muito pouco
até mesmo ouvido mouco
 enchendo o ar com grito rouco

enfrento raio e tempestade
quero nada pela metade
já tenho mais que idade
de buscar sorte em outra cidade

sábado, 7 de maio de 2011

CONSTATAÇÃO

Acordou sozinha – era sábado, dia em que não era sacudida pela mãe às 5 da manhã... hoje e domingo eram os únicos dias que podia dormir até o sono e o cansaço estarem saciados... benditos sábados e domingos...sem madrugadas, sem correria de aulas...sem nada...
Sem nada...exatamente, nada – porque durante a semana tinha que pular da cama às 5 da manhã pra aula de matemática que começava às 6 ( quem podia inventar  uma aula, ainda mais de matemática, às 6 da manhã ? ), depois aula no curso preparatório pro concurso, a volta pra casa, almoço corrido, porque 2 vezes por semana, mais outra aula de matemática – com outra professora – ( ela era muito ruim em matemática, mesmo ), 3 vezes por semana, aula de português...
Hoje, adulta, ainda lembrava da correria, da casa da professora de português, casa de vila, a duas quadras da casa dela; lembrava do apartamento da professora de matemática, no último andar, 3 lances de escada onde ficava sentada esperando que a “turma” anterior saísse pra que pudesse entrar... lembrava da luminosidade da casa da vila, da penumbra do corredor do apartamento...
Tudo era feito quase num único fôlego – no automático, mal podendo respirar – atividades se atropelando, uma após outra, e chegando em casa, meio morta ainda pra fazer todos os deveres de casa pro dia seguinte... era como um robô, fazendo tudo que era determinado, sem questionar, sem parar, sem pensar...sem nem mesmo sentir... a noite chegava, banho, jantar e cama que, dia seguinte, às 5 da manhã tudo recomeçava...exceto sábados e domingos...aí podia dormir até mais tarde – no máximo 7:30, corpo acostumado às madrugadas, não ficava muito tempo aproveitando a cama...
Nessa época as benditas 6 horas diárias de estudo de piano foram deixadas meio de lado – prioridade era ser aprovada no concurso – cursinho vinha em primeiro lugar – então o piano ficava lá, na parede, à espera que ela viesse – e vinha, de vez em quando, não pra treinar exercícios de escalas intermináveis ou tocar clássicos memoráveis...vinha pra dedilhar músicas de filmes, aquelas que ouvia no rádio ou guardava na memória... esses momentos, sentada ao piano, dedilhando o que dava prazer, eram seu descanso, sua terapia quando aconteciam – não todos os dias, dependia do volume de deveres de casa – cursinho em primeiro lugar!
Mas sábado e domingo não havia correria... levantava, tomava café e ficava vagando pela casa...às vezes sentada ao piano, outras apenas ficando por ali, indo ao jardim, andando de bicicleta... na época não gostava dos sábados nem domingos – não sabia a razão – achava tudo vazio, sem a correria da semana... nada entendia, com seus 10 anos de idade não tinha maturidade pra perceber o vazio que era sua vida – cheia de atividades, atordoantes, mas nenhum momento de calor humano.
Quando essas atividades não existiam – sábado e domingo – ficava por ali, ignorada, transparente, sequer trocavam duas palavras com ela...a não ser pra avisar que almoço estava na mesa e o lanche da tarde estava pronto... nessa época o peso desse vazio era gigantesco, somente sentia, mas não identificava, sequer se dava conta dele e de sua causa...
Algumas tardes estudava geografia e história com o pai – por quê o Amazonas tinha que ter tantos afluentes? e em que isso importava? não tinha a menor idéia onde ficava o rio... e as serras??? qual a importância delas? mas tinha que saber... a capital da Nigéria também era importante, assim como da Iugoslávia ( de então ) – e lá ia ela recitando aquela ladainha – excelente memória sempre teve – então repetia como um papagaio e recebia um sorriso de volta como aprovação pelas respostas corretas...
A isso resumiam-se as conversas com ela...com sua mãe conversava sobre...nada... algumas vezes reclamou que as tranças estavam muito apertadas, mas recebia de resposta ‘ tem que ficar assim por cabelo não cair no rosto’...acabou desistindo...ficassem apertadas...de noite, ao deitar, a dor de cabeça passava...
Hoje, adulta, rememorando, se dava conta do silêncio que sempre envolveu sua vida, da constatação de completa indiferença, como ser humano – era uma máquina de produzir resultados – e tinham que ser positivos – e sempre eram, falhas não eram admitidas, fora de questão...
Sábados e domingos de abandono, de solidão – quando chovia, ficava à janela, olhando a rua pela vidraça, tudo cinza lá fora, como cinza era seu interior – sentia um aperto no peito – na época não identificava – mas hoje sabia que era o aperto do abandono, do ser ignorada, do ser transparente...
O concurso veio – foi aprovada, claro – mas a solidão, o abandono a acompanham pela vida... sempre viveu como se estivesse anestesiada, sem exprimir sua vontade, sem se rebelar, sem gritar que era uma pessoa, precisando de amor, carinho, amparo, atenção... jamais se rebelou, nunca questionou, a não ser uma vez em que ousou dizer que não queria determinada comida no jantar e recebeu uma resposta definitiva ‘quando eu perguntar o que você quer, aí você responde’ e ela retrucou ‘mas você nunca pergunta’... e veio a pancada final...’então não escolha, aceite...’
Ah, e essa vida que é toda feita de escolhas... depende delas o caminho que tomamos em nossa jornada... não escolha, aceite...como impedir alguém de escolher algo, tirar-lhe o livre arbítrio, tirar-lhe a possibilidade de até cometer erros pra com eles aprender e crescer?
Simplesmente não enxergando essa pessoa, fazendo-a transparente... conversas sobre nada porque não existia uma outra pessoa do outro lado – só um vazio, um silêncio, um abandono... as cinzentas e chuvosas tardes de sábado e domingo.



sexta-feira, 6 de maio de 2011

ALMA ABERTA

Esses últimos  dias venho pensando o que me leva a escrever. O simples fato de colocar idéias e sentimentos por escrito já seriam uma satisfação pra mim. Mas algumas vezes fico aflita porque quero escrever e nada surge de interessante.
Já percebi que alguns de meus textos surgem quando estou em momentos de tristeza – aí surgem doloridos, saudosos, melancólicos, evocando momentos perdidos, sentimentos derrubados ou menosprezados.
Em outros momentos meu bom humor norteia minas palavras e fluem textos mais leves, mais soltos, alguns até meio engraçados.
De uns tempos pra cá tenho encontrado alguma dificuldade em escrever – nada me surge, nenhum tema me atrai, minha inspiração parece ter evaporado. Falar de amor, de dor, de saudade, de tristeza, amargura ou beleza, quando estou melancólica. Falar de risos, brilhos, cores e magias quando alegre estou. Momentos em que minhas gargalhadas surgem de repente, estrondosas, soltas, diante de coisas simples mas que me alvoroçam o humor. Lágrimas, nem sei se as tenho mais - esqueci a última vez em que chorei - então, esqueci, também, o motivo do choro.
Mas qual a novidade disso tudo? não somos todos assim? somos artífices de fantasias, escritas ou não, que se mostram aos outros em letras ou comportamentos. E nesse grande carrossel que é a vida, somos atores, não de um texto escrito por nós, mas escrito para todos nós, dos qual nada sabemos, vivendo cada momento como em suspenso, esperando o desenrolar dessa grande teia que se chama vida. Somos uma combinação de atores e espectadores, diante da expectativa do que está por vir.
Quando escrevemos temos um pouco de controle sobre esse enredo – podemos até deixá-lo de lado, quando não parece refletir o que buscamos e queremos transmitir... mas o texto da vida...ah, esse não é de nossa autoria – temos que nos contentar em sermos apenas atores – algumas vezes protagonistas, outras meros coadjuvantes...
E não importa se é melancólico ou alegre, a nós compete apenas interpretar, e bem, mergulhando em cada emoção de forma a torná-la verdadeira em sua inteireza. Porque é assim que se espera que vivamos esses papéis – atores de nossa própria história, tentando, como crianças desajeitadas, alterar algumas linhas que nos tragam dor e sofrimento, mas o texto está pronto, desconhecemos seu final, mas não podemos fugir muito dele.
Escrever é desnudar a alma, é dar-se a conhecer por dentro; é uma forma, talvez, de trazer ao mundo da fantasia, do irreal, aquilo que, no nosso íntimo, gostaríamos que fosse verdadeiro. Ainda uma forma de expurgarmos nossos demônios, tirarmos esqueletos de armário, trazermos um pouco de alento e suavidade à nossa vida, esvaziando nossos pesares e aumentando nossos prazeres.
Assim, quando em meu interior tudo parece morno, estático, como antecedendo uma grande tempestade, sei que em algum momento, mais adiante, emoções mais fortes virão, impulsionando minha inspiração. Por enquanto, fica apenas esse abrir de alma, essa conversa interior, que nada acrescenta a ninguém, mas que escrevo apenas pelo grande prazer e a falta de medo que tenho de colocar sentimentos por escrito.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A VOLTA

Rogério viajava umas 3 ou 4 vezes por ano, a trabalho, participando de congressos e simpósios – tudo pago pela empresa, o que incluía bons hotéis, refeições excelentes e algumas outras mordomias...
Nessas viagens, Rogério sempre encontrava Américo e Humberto, antigos colegas de universidade que, agora, trabalhavam em empresas diferentes, em outros lugares no país, mas cujo segmento profissional era o mesmo. Cada encontro deles era uma orgia – gastronômica e sexual, porque se esbaldavam com boa comida, bons vinhos e  mulheres – invariavelmente encontradas nos saguões dos hotéis em que se hospedavam.
Todos três casados, no final de cada dia dos simpósios, se encontravam pra contar as proezas sexuais da noite anterior e prever as que viriam naquela noite. Conversas picantes, escancaradas – amigos de longa data – riam muito com as ‘performances’ de suas parceiras...
Das esposas, lembravam-se só na hora de um telefonema diário, apenas pra ‘marcar presença’, como falavam às gargalhadas...
Um congresso terminou antes do programado – daria tempo, se conseguisse trocar a passagem aérea, de chegar em casa ainda essa noite, mesmo que fosse lá pelas 2 da manhã. Melhor assim – já amanhecia por lá e ia trabalhar mais descansado – além de fazer ‘boa figura’ com a esposa – demonstrando vontade de voltar pra casa logo que o congresso terminasse...
Chegou em casa, abriu a porta e, sem fazer qualquer barulho, pé ante pé, foi pro seu quarto – ia tirar a roupa e deitar direto na cama...surpreendendo a esposa com um grande abraço e uma pegada forte...
Totalmente sem roupa, chegou do lado da cama em que a esposa dormia e foi deslizando a mão pelo braço dela, buscando seios e pescoço... sentiu a mulher se remexendo e gemendo, esticando o braço pra segurá-lo também...
Quando falou ‘meu amor, que saudade...’ ouviu um grito, a mulher começo a espernear e ouviu outra voz...masculina...no meio do tumulto formado...
Luzes de abatjours acesas, a cena era, Rogério, nu, de pé ao lado da cama, enquanto na dita cuja estavam, também nus, sua mulher e... Osvaldo ? como Osvaldo?...seu amigo...
“Marina, o que significa isso ?”
“Simples, meu bem...as suas viagens...você aproveita de um jeito...e eu... do mesmo jeito...”

terça-feira, 3 de maio de 2011

A CONTRIBUIÇÃO


“Alô”
Alô, bom dia...”
“Bom dia...”
“Senhora, eu sou do asilo de idosos  Vida Feliz e queria falar com a senhora...”
“Pois não... pode falar...”
A moça que ligava deu uma parada – estava acostumada com reações do tipo...  bater telefone na cara dela ( muito comum ), ouvir ‘não obrigada’, ‘não quero nada’, ‘não estou interessada’, ‘agora tô super atrasada’... mas ouvir ‘pois não, pode falar’, pegou-a de surpresa
“Então, senhora, é que nós abrigamos 187 idosos, senhores e senhoras e estamos fazendo ligações pra pedir que as pessoas contribuam com nossa entidade...”
“Certo... e qual o tipo de contribuição vocês estão pedindo?”
Bom... – acostumada com telefone batido na cara, a moça não tinha nem como explicar do que precisavam... foi pega de surpresa...- então... a gente tá precisando de agasalho...- entusiasmada – na verdade a gente está começando uma campanha do agasalho e se a senhora pudesse ajudar...”
Posso sim... – pausa – e precisam de mais alguma coisa?”
Nessas alturas a moça estava muda, porque seu pobre discurso telefônico nunca passou da primeira frase que era sempre interrompida...
Bom, então, a gente também tem um carnê pra sócios...é assim...”
“Já sei... a gente recebe um carnê e paga mensalmente e com esse dinheiro vocês vão mantendo o asilo...é isso?”
“Então...é isso... e a gente tem também alguns encontros, a gente faz churrasco, festa junina...e os sócios são sempre os primeiros a serem convidados...”
“Entendi... pode me mandar um carnê, também...quero me tornar sócia...”
Nessas alturas a moça estava quase em transe – já tinha levado umas 50 broncas do dirigente do asilo, porque não conseguia trazer nenhuma contribuição – outra telefonista sempre conseguia, pelo menos uma por semana e ela nunca...
Puxa, muito obrigada... então, vou precisar de alguns dados seus pra poder mandar o carnê...”
“Sim, claro...do que você precisa?”
Bom, então... seu nome completo, seu...”
Espera um momento... meu nome completo? como assim? VOCÊ está me ligando... tem que saber o nome da pessoa com quem está falando... ou não?”
Silêncio do outro lado...
“Alô...hei, você ainda está aí?”
Sim, senhora, estou...mas é que a gente recebe uma lista de números de telefones... na verdade a gente só fica sabendo o nome se a pessoa quiser ajudar a gente...”
Ah, entendi...então você não sabe com quem está falando? é isso mesmo?”
“Sim senhora...então, se a senhora me disser seu nome e seu endereço, a gente faz o carnê e manda pra sua casa pelo correio e também coloca seu nome na lista de sócios e a senhora vai ser convidada pra tudo – churrasco, festa junina...” – o entusiasmo na voz dela era perceptível
“Ok, então vamos lá... meu nome é Marilyn Monroe e meu endereço...”
Desculpe senhora, mas como é seu nome? pode repetir?”
Marilyn Monroe e meu endereço...”
Senhora, desculpe de novo...mas como é que se escreve seu nome?”
“Marilyn – m ( de mamãe ) – a ( de avião ) – r ( de rato ) – i ( de idiota ) – l ( de Lucia ) – y ( de York ) – n ( de navio )”
Desculpe, senhora....mas é o quê de órque ?”
“Y, minha filha, Y – uma letra que vem antes do Z no alfabeto...”
Então, senhora, é isso ai que a senhora falou ou Z ? desculpe mas não tô entendendo...”
“É isso que falei... mas faz o seguinte – coloca i ( de idiota )...”
Tá bom...então é dois I, é isso?”
“É, com dois I tá bom...”
E o resto? a senhora pode falar letra por letra?”
Vamos lá – m ( de mamãe ) – o ( de orelha ) – n ( de navio ) – r ( de rato ) – o ( de orelha ) – e ( de elefante ) – Marilyn Monroe...”
Ah, agora já sei, tenho uma vizinha que tem o nome da senhora – Mérilin Monrôu...mas o dela não escreve como o seu não... engraçado o seu, diferente...”
“Pois é, então agora já tem meu nome... que mais você precisa?”
Seu endereço, pra mandar...”
“Já sei, o carnê pelo correio... tá bom escreve aí...  Connecticut Avenue, 4600, apartamento 620, Washington D.C., U.S.A.”
Senhora, pelo amor de Deus, o que é isso? que endereço é esse? todo estranho?”
“É o meu endereço...você ligou pra minha casa, me contou um monte de coisas, pediu pra eu ser sócia do asilo, quer meu nome e endereço, tô passando tudo pra você... qual é o problema?”
Não senhora, a senhora não fica ofendida, não, mas sabe... é que esse seu endereço... eu não entendi uma palavra...só os números...”
“É que moro nos Estados Unidos...”
Desculpe, senhora, mas a senhora mora onde??? Estados Unidos? como assim? eu fiz uma ligação local...”
“Olha, eu estou na mesma cidade que você, agora, mas eu moro nos Estados Unidos e você pediu meu endereço – é esse que falei antes...”
“ Bom,então, senhora dona Merilin, o carnê vai ter que ser mandado pros Estados Unidos? lá na América? é isso mesmo?”
“Exatamente...coloca no correio aqui que eu recebo lá...simples, né?”
“Então, senhora, não sei... tenho que falar com meu chefe, porque aqui a gente tá acostumada a mandar pelo correio mas é pra essa cidade mesmo... sendo pra mais longe...não sei se ele vai deixar...”
“Olha, estou querendo ajudar, quero receber o carnê, mas se não pode mandar pro meu endereço, tudo bem, a gente encerra a ligação agora...”
Não senhora, por favor, não desliga...se a senhora puder esperar um momentinho eu vou estar perguntando pro meu chefe e já falo com a senhora...por favor não desliga, volto já...”
Menos de um minuto depois a menina voltou
Alô, dona Mérilin, então, eu falei com meu chefe e ele disse que vai mandar sim, lá pro seu endereço... a senhora pode me passar, por favor? mas, senhora, fala as letras, por favor...”
“Ok, então lá vai... c ( de cachorro ) – o ( de orelha ) – n ( de não ) – n ( de não) – e ( de elefante ) – c ( de cachorro ) – t ( de triste ) – i ( de infeliz ) – c ( de cachorro ) – a ( de amor ) – v ( de viagem ) – e ( de encantamento ) – n ( de não) – u ( de urubu ) – e ( de elefante)... pegou tudo?”
“Olha dona Merilin, pegar...peguei, mas tem uma palavra aí que não entendi  - essa da letra v... como que se escreve viagem?”
“ Esquece... vou te dar o resto do endereço, né?”
A moça estava encantada com a forma como estava sendo tratada... Depois da trocas de informações, ela finalizou
“Então senhora, quero agradecer muito toda sua atenção.. .puxa, há tanto tempo que não sou tratada assim...sabe, vou contar pra senhora, dona Mérilin, geralmente as pessoas batem com telefone na minha cara...mas a senhora...muito gentil...obrigada...”
Que é isso, menina, a gente tá nesse mundo pra ajudar, né??”
Pois é, então, dona Mérilin, já que a senhora foi tão gente fina comigo, será que a senhora não tem alguma amiga ou amigo que a senhora possa indicar pra ajudar nosso asilo...porque a senhora sabe, né dona Mérilin, os churrascos custam caro e a festa junina, então, ixxi, nem sem fala...mas a senhora vai se convidada pra tudo, pode ficar descansada...”
“Eu estou descansada... agora quanto aos amigos, é... até posso indicar uns dois...você quer anotar os nomes?”
“ Ah, quero sim senhora e em nome do asilo Vida Feliz eu agradeço muito...pode passar os nomes, por favor...ah, e se a senhora tiver também os telefones, dona Mérilin, eu vou agradecer muito...senão, vejo na lista...”
“Nomes eu tenho, mas telefones não tenho, porque eles se mudaram  e tem um tempo que não falo com eles...mas se você procurar, vai achar na lista, sim...”
Então tá ótimo...pode falar, por favor, senhora...”
“Toma nota – Sir Lancet Olivier e Charles Windsor Castle...”
Ai, dona Mérilin, pelo amor de Deus, a senhora tem uns amigos com uns nomes estranhos! ninguém chama José ou Antonio...né?”
“ É, não chamam não...mas pode deixar que te digo letra por letra... e depois você procura o telefone na lista...”
Soletrou os dois nomes – uma loucura pra atendente entender ‘Sir’, mas no final, tudo funcionou. Ela estava muito agradecida e prometeu mandar o carnê pelo correio o mais rápido possível e arrematou
“Olha, dona Mérilin, quando tiver churrasco, vou mandar convite pra senhora e faço questão de conhecer a senhora pessoalmente – tão gentil...”
“Pode mandar, que eu vou, com muito prazer...agora tenho que desligar...”
“Claro, dona Mérilin, o asilo Vida Feliz agradece muito sua atenção e tenha um bom dia...”
“Obrigada...bom dia pra você também...”
Norma desligou o telefone, olhou relógio e pensou ‘ainda bem que arranjei o que fazer nesse tempo que estou esperando Arnaldo...agora ele já está chegando....vou descer...’