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Simone,


A luz que brilha nos meus olhos vem da minha mente, fervilhante de idéias, pensamentos, sonhos...através de meus dedos e mãos trago vida a esse turbilhão, colocando em palavras o que insiste em gritar dentro de mim...

Cada movimento das árvores bailando ao vento traz encanto e paz ao meu ser; cada pássaro que ouço da minha janela traz música à minha alma...Assim sou eu, dando valor a cada pequena coisa, tornando-a valiosa e importante!



Simone































sábado, 7 de maio de 2011

CONSTATAÇÃO

Acordou sozinha – era sábado, dia em que não era sacudida pela mãe às 5 da manhã... hoje e domingo eram os únicos dias que podia dormir até o sono e o cansaço estarem saciados... benditos sábados e domingos...sem madrugadas, sem correria de aulas...sem nada...
Sem nada...exatamente, nada – porque durante a semana tinha que pular da cama às 5 da manhã pra aula de matemática que começava às 6 ( quem podia inventar  uma aula, ainda mais de matemática, às 6 da manhã ? ), depois aula no curso preparatório pro concurso, a volta pra casa, almoço corrido, porque 2 vezes por semana, mais outra aula de matemática – com outra professora – ( ela era muito ruim em matemática, mesmo ), 3 vezes por semana, aula de português...
Hoje, adulta, ainda lembrava da correria, da casa da professora de português, casa de vila, a duas quadras da casa dela; lembrava do apartamento da professora de matemática, no último andar, 3 lances de escada onde ficava sentada esperando que a “turma” anterior saísse pra que pudesse entrar... lembrava da luminosidade da casa da vila, da penumbra do corredor do apartamento...
Tudo era feito quase num único fôlego – no automático, mal podendo respirar – atividades se atropelando, uma após outra, e chegando em casa, meio morta ainda pra fazer todos os deveres de casa pro dia seguinte... era como um robô, fazendo tudo que era determinado, sem questionar, sem parar, sem pensar...sem nem mesmo sentir... a noite chegava, banho, jantar e cama que, dia seguinte, às 5 da manhã tudo recomeçava...exceto sábados e domingos...aí podia dormir até mais tarde – no máximo 7:30, corpo acostumado às madrugadas, não ficava muito tempo aproveitando a cama...
Nessa época as benditas 6 horas diárias de estudo de piano foram deixadas meio de lado – prioridade era ser aprovada no concurso – cursinho vinha em primeiro lugar – então o piano ficava lá, na parede, à espera que ela viesse – e vinha, de vez em quando, não pra treinar exercícios de escalas intermináveis ou tocar clássicos memoráveis...vinha pra dedilhar músicas de filmes, aquelas que ouvia no rádio ou guardava na memória... esses momentos, sentada ao piano, dedilhando o que dava prazer, eram seu descanso, sua terapia quando aconteciam – não todos os dias, dependia do volume de deveres de casa – cursinho em primeiro lugar!
Mas sábado e domingo não havia correria... levantava, tomava café e ficava vagando pela casa...às vezes sentada ao piano, outras apenas ficando por ali, indo ao jardim, andando de bicicleta... na época não gostava dos sábados nem domingos – não sabia a razão – achava tudo vazio, sem a correria da semana... nada entendia, com seus 10 anos de idade não tinha maturidade pra perceber o vazio que era sua vida – cheia de atividades, atordoantes, mas nenhum momento de calor humano.
Quando essas atividades não existiam – sábado e domingo – ficava por ali, ignorada, transparente, sequer trocavam duas palavras com ela...a não ser pra avisar que almoço estava na mesa e o lanche da tarde estava pronto... nessa época o peso desse vazio era gigantesco, somente sentia, mas não identificava, sequer se dava conta dele e de sua causa...
Algumas tardes estudava geografia e história com o pai – por quê o Amazonas tinha que ter tantos afluentes? e em que isso importava? não tinha a menor idéia onde ficava o rio... e as serras??? qual a importância delas? mas tinha que saber... a capital da Nigéria também era importante, assim como da Iugoslávia ( de então ) – e lá ia ela recitando aquela ladainha – excelente memória sempre teve – então repetia como um papagaio e recebia um sorriso de volta como aprovação pelas respostas corretas...
A isso resumiam-se as conversas com ela...com sua mãe conversava sobre...nada... algumas vezes reclamou que as tranças estavam muito apertadas, mas recebia de resposta ‘ tem que ficar assim por cabelo não cair no rosto’...acabou desistindo...ficassem apertadas...de noite, ao deitar, a dor de cabeça passava...
Hoje, adulta, rememorando, se dava conta do silêncio que sempre envolveu sua vida, da constatação de completa indiferença, como ser humano – era uma máquina de produzir resultados – e tinham que ser positivos – e sempre eram, falhas não eram admitidas, fora de questão...
Sábados e domingos de abandono, de solidão – quando chovia, ficava à janela, olhando a rua pela vidraça, tudo cinza lá fora, como cinza era seu interior – sentia um aperto no peito – na época não identificava – mas hoje sabia que era o aperto do abandono, do ser ignorada, do ser transparente...
O concurso veio – foi aprovada, claro – mas a solidão, o abandono a acompanham pela vida... sempre viveu como se estivesse anestesiada, sem exprimir sua vontade, sem se rebelar, sem gritar que era uma pessoa, precisando de amor, carinho, amparo, atenção... jamais se rebelou, nunca questionou, a não ser uma vez em que ousou dizer que não queria determinada comida no jantar e recebeu uma resposta definitiva ‘quando eu perguntar o que você quer, aí você responde’ e ela retrucou ‘mas você nunca pergunta’... e veio a pancada final...’então não escolha, aceite...’
Ah, e essa vida que é toda feita de escolhas... depende delas o caminho que tomamos em nossa jornada... não escolha, aceite...como impedir alguém de escolher algo, tirar-lhe o livre arbítrio, tirar-lhe a possibilidade de até cometer erros pra com eles aprender e crescer?
Simplesmente não enxergando essa pessoa, fazendo-a transparente... conversas sobre nada porque não existia uma outra pessoa do outro lado – só um vazio, um silêncio, um abandono... as cinzentas e chuvosas tardes de sábado e domingo.



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