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Simone,


A luz que brilha nos meus olhos vem da minha mente, fervilhante de idéias, pensamentos, sonhos...através de meus dedos e mãos trago vida a esse turbilhão, colocando em palavras o que insiste em gritar dentro de mim...

Cada movimento das árvores bailando ao vento traz encanto e paz ao meu ser; cada pássaro que ouço da minha janela traz música à minha alma...Assim sou eu, dando valor a cada pequena coisa, tornando-a valiosa e importante!



Simone































sábado, 21 de maio de 2011

AMOR ARDENTE

Marcelo abriu os olhos e se deu conta que estava deitado em posição fetal – todo encolhido na cama. Na hora se deu conta que aquela posição física expressava seu interior.
Há dois dias vivia um tormento ininterrupto. Imaginava se sua fisionomia revelava suas angústias e todo o desespero que começou a sentir na manhã de antes de ontem. Lá pelas 10 horas da manhã foi chamado á sala do Diretor e recebeu o comunicado que ia ser transferido. O rosto do Diretor expressava uma grande alegria e foi com grande entusiasmo que comunicou a Marcelo seu novo lugar de trabalho.
Quando ouviu o nome do lugar, Marcelo sentiu um frio subindo pela espinha, suas pernas falsearam, sentiu-se empalidecer. Mas o auto-controle desenvolvido rigidamente ao longo dos anos, a disciplina estrita em que vivia fizeram com que sua reação não durasse mais que 2 ou 3 segundos...
O entusiasmo do Diretor era visível...nem mesmo notou a rapidíssima reação de Marcelo...continuou a falar com alegria...
“Então...fico feliz em poder dar essa notícia a você...voltar pra sua cidade natal, ficar mais perto de sua família, de seus amigos... não é sempre que se consegue esse privilégio, mas seu esforço e dedicação ao trabalho contribuíram pra que você se destacasse e, como sei onde você nasceu, não tive dúvidas em indicar você pra essa transferência...”
Marcelo intimamente agradeceu essa grande explicação do Diretor – teve tempo de assimilar a notícia e se preparar pra responder, como esperado...
“Sim, sem dúvida, grande notícia... fico muito agradecido por ter se lembrado de mim, embora pense que existam outros tão melhores que eu que poderiam ocupar essa vaga...” – deixou a sugestão suspensa no ar, esperando que o Diretor considerasse que ele, Marcelo, não ficaria insatisfeito se outro fosse o indicado...
“Nada disso, indiquei você e assim será...claro que temos outros tão qualificados quanto você, mas o que pesou a seu favor foi, exatamente, o fato de ter nascido lá... então, está resolvido, vaga é sua, trate de começar a arrumar sua mudança que até o final do mês, você assume seu novo posto!”
Desde aquela conversa, Marcelo se consumia por dentro, angústia, desespero, dúvidas, ansiedade, alegria por voltar à cidade – enfim uma grande ciranda de sentimentos e emoções tão contraditórios
Decisão tomada...não adiantava ficar em posição fetal na cama...tinha mais que levantar e começar os preparativos da transferência. Bagagem pessoal, pouca coisa – local pra ficar já providenciado pelo Diretor – ia substituir alguém – era uma “casa funcional” como costumavam brincar... Só que ele não estava com nenhuma disposição pra brincadeiras...
A volta à cidade natal....sonho buscado por tantos, pesadelo pra ele...apesar da família morar ainda por lá, veio adolescente estudar na cidade grande e ficou, começando vida profissional.
Saiu de lá, mas lembrava bem da época em que se transformava de criança em adolescente, de sua amizade com Roberto, colega de escola, morando na mesma rua, suas mães amigas... brincadeiras inocentes que, pouco a pouco foram se tornando mais íntimas, mais sérias até ambos explodirem, alucinados, reconhecendo o amor, a paixão que sentiam um pelo outro...
Por mais de 4 anos viveram esse amor escondido, fingindo na frente das pessoas, agüentando ser apresentado a várias “candidatas” à namorada por sua mãe...sempre saindo pela tangente...
Longas conversas com Roberto, abraçados, em seu “esconderijo” ( uma gruta afastada que ninguém visitava)...ali vivam seu amor ardente, ali trocavam carícias, confidências, lágrimas de desespero por não poderem viver esse amor em sua plenitude... Marcelo sendo engolfado por aquele amor avassalador que a tudo consumia, sentindo em Roberto iguais reações, misto de ternura, paixão, amor e angústia...
Marcelo ia partir em breve – ambos sabiam – Roberto ficaria. Algo definido desde sempre, buscado por Marcelo, muito antes de descobrir o amor com seu amado/amante...Roberto nada dizia, não interferia – queria-o por inteiro, sem dúvidas...
A última vez que estiveram juntos, antes da partida foi uma tormenta pra ambos – amor alucinado, beijos,braços, línguas, pernas se enroscando, arfando nos braços um do outro, como se quisessem deixar impresso, na pele um do outro, esse amor imenso, gigante, maior que eles... paixão misturada com lágrimas, com momentos de silêncio, um nos braços do outro, pensando no que estavam vivendo e no que viria...
Marcelo viajou, Roberto ficou. Sem correspondência, sem telefonemas, sem contato por 9  longos anos. Aquele jovem que partiu, naquele dia, agora era um homem, respeitado, responsável... notícias de Roberto as tinha  vez por outra quando a mãe vinha visitar e fazia um ou outro comentário...nada especial, apenas um cruzando com outro na rua, rápido cumprimento...nessas horas, Marcelo explodia por dentro, sentindo que o amor continuava o mesmo, a boca seca demonstrava o desejo que queimava seu corpo – tudo voltava, mostrando que tudo era como antes – mesmo amor, mesma paixão, mesmo desejo, mesmo carinho, a mesma vontade de viver plenamente com seu amado...
Agora a volta à cidade natal. O tempo passou rápido, chegou dia da viagem – coração de Marcelo descontrolado no peito, porque sabia que era questão de dias ficar frente a frente com Roberto – ele ainda teria aquele vulcão dentro dele? ainda ficaria com olhos transbordando desejo, amor e paixão? ou estaria distante, apagado aquela maravilhosa, inesquecível história de amor? estaria casado ou mesmo teria encontrado outro a quem amasse, a quem abraçasse, a quem se entregasse?
A família o recebeu com festa – almoço com mesa farta – até as tias distantes vieram – afinal mais de 9 anos, merecia comemoração à altura, ainda mais vindo transferido por merecimento...mãe orgulhosa, olhava pra ele, através da mesa, pensando ‘esse é meu filho, meu tesouro’...
O pai questionou por que não ficava morando com eles – argumentou que havia a “casa funcional’ ( e rindo explicou o que era ) e que seu Diretor esperava que ele a ocupasse – mas agora morando tão perto, almoço de domingo presença garantida – pai e a mãe se olharam, orgulhosos e satisfeitos...
Marcelo se acomodou na casa nova ( a tal ‘funcional’) e se preparou para começar a trabalhar no dia seguinte. Anoiteceu e saiu pra espairecer um pouco, rever a cidade – pelo menos o centro, a praça – reencontrou pessoas, parou pra conversar com algumas, relembrando tempo de adolescente... todo tempo seus olhos varriam em volta, à procura de Roberto...nem sinal...
Quase de forma inconsciente, se viu andando pra gruta, lembrando das incontáveis vezes que fez esse caminho pra encontrar Roberto – ansioso na ida, angustiado na volta... hoje, a mesma ansiedade tomava conta dele...queria ir até lá, sentar e reviver as emoções, a paixão, o amor...desde que se separaram Marcelo nunca mais teve um único amor, como se quisesse preservar seu corpo, mantendo em seu ser  aquela magia vivida com Roberto...
Chegou à gruta, sentou-se na entrada e ali ficou... não queria entrar, não sozinho... a ausência de Roberto seria um peso gigantesco – bastava ficar na entrada, revivendo, relembrando... começou a chorar baixo, as lágrimas escorrendo pelo rosto, quase sem sentir, uma angústia subindo pelo peito, tomado conta dele todo...
“Por quê você chora, amor meu? Agora que você voltou, não precisamos mais chorar...” – Roberto abraçava-o pelos ombros, beijando sua nuca...
A explosão entre eles, derrubou esses 9 anos de separação! Como dois alucinados se consumiram em amor, paixão, desejo, saudade, expelindo toda angústia, todo sofrimento dessa ausência... abraçados, depois, choravam, no braço um do outro, por saudade, por felicidade e também por angústia, sabendo que continuariam se encontrando às escondidas, obrigados a manter invisível esse amor lindo, louco...Quase amanhecia quando se separaram...beijo, lágrima, olho no olho, um derramado pelo outro...assim  era o amor deles...quase sublime, pensava Marcelo...
Domingo, missa das 10, igreja cheia, hora da comunhão. Roberto se perguntava se teria coragem de comungar, com todo aquele amor explodindo em seu peito, aquele desejo consumindo, seu corpo e sua alma totalmente tomados por Marcelo e o amor imenso dos dois...
Entrou na fila, junto com os outros... quando chegou perto do altar, estendeu as duas mãos em concha pra receber a hóstia e levantou os olhos pra Marcelo que a entregava a ele, com um olhar de amor incondicional...



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