Olá,

Seja muito bem vindo (a) !

São textos simples, mas saídos da emoção...

Quero muito saber sua opinião - compartilhe comigo e com os outros.

Um grande e caloroso abraço

Simone,


A luz que brilha nos meus olhos vem da minha mente, fervilhante de idéias, pensamentos, sonhos...através de meus dedos e mãos trago vida a esse turbilhão, colocando em palavras o que insiste em gritar dentro de mim...

Cada movimento das árvores bailando ao vento traz encanto e paz ao meu ser; cada pássaro que ouço da minha janela traz música à minha alma...Assim sou eu, dando valor a cada pequena coisa, tornando-a valiosa e importante!



Simone































segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

SANFONEIRO DESCALÇO

Quando era criança, passava minhas férias na fazenda de uma tia (postiça, porque na verdade, era amiga da minha mãe). Era uma farra porque éramos mais de 22 crianças e jovens, com idades entre 5 e 18 anos.Fazíamos de tudo naquela fazenda, desde andar a cavalo, horas a fio, a banho de rio, sentar na ponte, à noite, cantando desafinados qualquer música que cismássemos.
Mas existiam noites especiais, em que minha tia resolvia promover “saraus’. Não eram saraus como os que tanto conhecemos, com música de câmara, cantores líricos...
Na verdade, chamar de “sarau” era um exagero, porque todos se sentavam em roda na varanda gigantesca e lá vinham o violeiro, o sanfoneiro e alguém com um pandeiro – pronto, estava montado o “sarau” ! E tome música  sertaneja...o coral, mais desafinado, impossível, mas o que valia, mesmo, era a reunião, a alegria, a descontração.
E o que mais me chamava atenção era o sanfoneiro. Nelson era seu nome. Cego de um olho, analfabeto, mas tocava uma sanfona de respeito. Era irmão do capataz ( todos os “músicos” eram peões da fazenda ) e nunca, mas nunca mesmo, coloquei os olhos nele durante o dia! Devia ficar perdido naquele mundaréu de terra, cuidando do gado, das plantações – sei lá...
Mas o que mais fascinava nele eram os pés. Com a idade indefinida peculiar dos interioranos, esse sanfoneiro cego, analfabeto, jamais havia calçado um único sapato em toda sua vida!
Eu ficava quase hipnotizada, olhando aqueles pés que mais pareciam cascos de animais, calejados de tanto andar no mato, seja chuva, seja sol, ano após ano.
Falava pouco, quase nada, limitando-se, quando muito, a dar um meio sorriso.
Um dia me aproximei dele, depois do “sarau” e perguntei por que ele nunca usava sapato. Ele meio tímido, me olhando de lado, com o olho bom, me deu a resposta que refletia toda sua simplicidade: “não sei”...
E em todas as férias em que voltava à fazenda, lá estava ele, sanfoneando, descalço. Até que num ano, quando voltei, soube que havia morrido e a família, em sinal de respeito, enterrou-o... de sapatos...

Nenhum comentário:

Postar um comentário