CONTRASTES
A rua era arborizada, filtrando o sol, onde mães orgulhosas empurravam os carrinhos de seus pimpolhos. Era uma rua calma, com jornaleiro conhecido na esquina, onde quase todos passavam pra um dedo de prosa. Contador de casos, sabia de tudo que se passava na rua: quem tinha novo namorado, quem mudou de babá, quem trocou de carro...e fazia questão de contar com mínimos detalhes ( desconfio que aumentava algumas coisas, mas era tão engraçado que valia a pena engolir seus pequenos excessos só pelo prazer da conversa).
Adiante ficava a padaria. Ninguém sabia o nome. Todo dia “vou à padaria” e já se sabia a qual estava se referindo. Servia o melhor café das redondezas, pelando, forte, encorpado. Ponto de encontro obrigatório (tal qual o jornaleiro ) dos aposentados que sentavam nas duas ou três mesinhas minúsculas e, com a desculpa de tomar um café, ficavam a manhã inteira falando mal do governo, da violência, das dificuldades da vida.
Mas viviam rindo. De quê, nunca entendi. Acho que o simples fato de estarem ali, juntos, desfrutando a companhia um do outro, já os fazia felizes.
Rua agradável, com pipoqueiro na outra esquina, prédios suntuosos com porteiros que mais pareciam lordes ingleses em seus uniformes.
E assim escoava o dia, caía a tarde morna, quando os cachorros da redondeza se misturavam às crianças nos passeios vespertinos. O sol se pondo lentamente, quase preguiçoso, como se não quisesse se afastar daquele lugar.
E vinha a noite. E tudo mudava... porque ali, no meio daquela calma quase indolente, funcionava uma casa noturna, daquelas que fervem de gente bonita, sarada, fazendo fila na porta.
A partir das onze da noite, parecia uma outra rua, fervilhante, efervescente. Uma algazarra tomava conta do lugar, com jovens vestidos com as roupas mais extravagantes, meninas se equilibrando em imensos saltos, rapazes tatuados, todos queimados, cheirando à juventude. Os olhos brilhavam ante a expectiva do que ( ou quem ) iriam encontrar lá dentro...
“Será que aquele gato que a gente viu hoje na praia vai vir?” perguntava uma loura com cabelo de chapinha o qual alisava ainda mais, incessantemente...
“Sei lá, se não vier, a gente logo descola alguém. Somos poderosas, meu bem... Ih! já viu a roupa da outra? não é a mesma que ela estava na festa da semana passada?”
Olhos ávidos, gulosos, procurando, procurando...
Lá dentro a luz piscava sem parar, o som altíssimo impedia qualquer conversa – aliás, conversar pra quê ? ninguém ia lá pra conversar! Ia-se pra ver, ser vista ( muito ! ), descolar um (a) gato (a), ficar e sair de lá sem nem saber o nome de quem passou a noite inteira beijando e alisando...
Antes das seis da manhã, os últimos fregueses saíam. As portas fechavam e, lá pelas sete, a rua retomava sua calmaria, com os carrinhos de bebê, os cachorros, os aposentados na padaria e o jornaleiro.
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