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Simone,


A luz que brilha nos meus olhos vem da minha mente, fervilhante de idéias, pensamentos, sonhos...através de meus dedos e mãos trago vida a esse turbilhão, colocando em palavras o que insiste em gritar dentro de mim...

Cada movimento das árvores bailando ao vento traz encanto e paz ao meu ser; cada pássaro que ouço da minha janela traz música à minha alma...Assim sou eu, dando valor a cada pequena coisa, tornando-a valiosa e importante!



Simone































sábado, 12 de março de 2011

O LUTO DE DORA

Dora abriu os olhos lentamente fixou na parede à sua frente... pouco a pouco tudo foi entrando em foco e, sem se mexer, começou a perceber, primeiro o quarto, a cama onde estava deitada... bocejou, abriu os braços, ainda deitada, se revirou um pouco e, afinal, levantou  e sentou na beira da cama...
Tornou a se espreguiçar, levantando os braços bem alto, sacudindo o resto de sono e moleza que teimavam em ficar...’tenho de ir pro hospital...ahnnnn’, novo bocejo...
Afinal levantou, preparou café, se arrumou e saiu.. .dois ônibus, pra chegar naquele fim de mundo que ficava o hospital... ‘até pra  ficar doente, o infeliz dá trabalho e aporrinhação...não podia ter passado mal mais perto de casa?...mas não, o ataque daquele coração desgraçado tinha que ser perto do trabalho, aquela fábrica em deus me livre... agora ficou eu, dois ônibus pra ir, mais dois pra voltar...aff, que merda...’
Chegou ao hospital, procurou o médico – ocupado, pra variar. Sentou para esperar. ‘estou nos trinques’ riu pra si mesma...
Fingir ansiedade, tristeza, preocupação? por causa daquele filho da puta que passou mais de 10 anos traindo a ela com todas as mulheres que encontrou no caminho??? nem as vizinhas da rua escaparam da cantadas de cafajeste dele...
Na vida de Haroldo  só poucas coisas interessavam – mulher, mulher, mulher, papo no botequim com os amigos onde paquerava mulheres e o inferno do futebol na televisão – esparramado no sofá, com uma bermuda esmulambada, enchendo a cara de cerveja, coçando saco e xingando todos os palavões com derrota do seu “mengão, o timão”...
Agora estava ali, deitado numa cama de enfermaria de hospital público ( o desgraçado nem plano de saúde nunca fez), naquela lonjura...e ela esperando o médico que, afinal chegou, e deu notícias ruins
“Estado do seu marido é muito grave...estamos fazendo tudo, mas organismo não está reagindo...melhor a senhora ir se preparando, porque pode ter uma notícia muito ruim em breve...”
‘Notícia ruim’ – ela pensou... ‘notícia ruim o escambau...só se fosse pra saber que aquele filho da puta estava melhorando e ia voltar pra casa pra continuar me enchendo o saco, com suas galinhagens, bebedeiras, arrotos e coçação de saco...notícia boa, isso sim...aliás ÓTIMA’
Entrou pra ver aquele trapo jogado na cama...quanta ironia, antes tão arrogante, tão cheio de impáfia, um garanhão, se gabava de ser “comedor...mulher nenhuma me escapa”...agora ali...
Ficou pouco tempo – só ia mesmo pra marcar presença e calar boca das vizinhas faladeiras que todo dia vinham perguntar pela recuperação do infeliz, procurando consolar Dora, que, no fundo sabia que, muita delas tinham  passados horas e horas na cama com o desgraçado...
Mas posava de esposa preocupada – afinal o infeliz ainda estava vivo – vai que resolve ficar curado e voltar pra casa – tinha que manter aparência de esposa  amorosa e preocupada, embora soubesse que, no bairro ( não só na rua ) o descaramento dele e os chifres dela  eram assunto diário...
Cecília, amiga de juventude, chegou e, sendo a única confidente de Dora, disparou
“E o estafermo? sai dessa ou agora embarca de vez?”
Cecilia participou das humilhações de Dora, esteve ao seu lado quando descobriu as primeiras traições... ouviu seu choro no início, depois sua revolta, depois sua indiferença...para Cecília não fazia teatro...era pão-pão, queijo-queijo, sem máscara de esposa atormentada...
Dois dias depois, chegou ao hospital e o médico comunicou: ‘seu marido acabou de falecer – tentamos ligar pra sua casa, mas não atendeu – acho que a senhora já estava vindo pra cá...’
Dora olhou para ele, tentando fazer um arremedo de surpresa dolorida, mas no fundo, ria solta – ‘afinal foste, vagabundo...e foste na semana do carnaval...tua época de pegar mais  mulher...ficar bêbado, varando madrugada na rua...esse carnaval tu não vê, desgraçado...’
Providenciou enterro – maioria de vizinhos do bairro mesmo – mulheres às pencas chorando – Dora se perguntava quantas, ali, ‘tinham ficado viúvas’...e riu por dentro...
Na rua em que morava, havia um bloco de carnaval – coisa simples, mas animado, percorria as ruas, trazendo pessoas para dançarem e outras ficavam na janela mesmo, espiando, como Dora. Nunca participou – o filho da mãe do Haroldo, vestido de mulher, bêbado, atracado com a mulherada, passando a mão na bunda de várias, fazia com que ela se envergonhasse até de chegar na janela...Mas ouvia a cantoria, o ritmo dos tamborins e, sozinha, dentro de casa, se acabava de dançar...adorava carnaval, mas nunca ia permitir que as sacanagens carnavalescas de Haroldo fossem jogadas na sua cara, na frente de todos...preferia ficar em casa, sambando sozinha.
Boa de rodeios e remelexos, sacudia as ancas no ritmo dos tamborins, sorriso aberto no rosto, se imaginando no meio dos outros, virando os olhos de alegria...essa ficava entre as quatro paredes da casa...
Sexta-feira, véspera de carnaval, Cecília entrou esbaforida, cheia de novidades:
“Cê num sabe que aconteceu... acho que agora carnaval do bairro melou de vez... sabe Leilinha? coitadinha...”
“Que Leilinha, amiga? Sei lá quem é... mais uma das amantes do safado? não me diz que apareceu grávida...”
“Que amante? que grávida? Leilinha, filha da dona Marieta, menina de 14 anos...”
“Ah, isso de ter 14 anos nunca foi impecilho pras semvergonhices  do infeliz, você sabe, tão bem quanto eu...”
“Mulher,ouve.. .Leilinha, que carrega o estandarte do bloco daqui do bairro... crise de apendicite, operada às pressas, essa madrugada... dona Marieta tá numa aflição só, com susto que passou...”
“Sim, mas a menina tá passando bem? ou aconteceu mais alguma coisa?”
“Ixxi, não aconteceu..  .ainda, mas vai acontecer... – dando uma paradinha pra tomar fôlego, disparou – e agora, quem vai segurar estandarte do bloco?”
Dora deu um pulo da cadeira, olho brilhando, cabeça a mil por hora
“O problema então é QUEM VAI SEGURAR ESTANDARTE DO BLOCO? é isso mesmo? é por isso que cê disse que melou carnaval do bairro?”
“Ué, então.. .bloco sem estandarte, fica meio sem graça...Leilinha dançava tão linda, rebolando, eita menina pra sambar no pé... agora, de cama, operada...quem vai segurar estandarte?”
“EU !!!! CLARO!!!”
“Agora cê endoideceu de vez..... tá maluca, mulher? tem nem 7 dias que teu marido morreu, nem missa ainda teve... vai sair pelas ruas do bairro, segurando estandarte de bloco de carnaval?”
“VOU E TE DIGO MAIS... ME AGUARDE QUE TU VAI CAIR DURA...!”
“Virji, Dorinha, olha sei que o cafajeste num valia nada mesmo, deve de tá ardendo numa fogueira bem grande, mas o povo!! Dorinha....o povo vai falar cobras e lagartos de você, mulher...”
“Tô me lixando pro que vão falar.. .aliás sempre falaram muito de mim...lá vai a corna, a chifruda, a traída... foi sempre assim que falaram de mim no bairro...agora, vão falar ‘lá vai nossa sambista, segura nosso estandarte como ninguém...’
Nenhum apelo de Cecilia mudou idéia de Dora que ainda mandou amiga avisar no bloco que estandarte ia sair, sim, mas fez amiga jurar, dedos cruzados, que não ia contar quem ia segurar o dito cujo...
Sábado de carnaval, povo aglomerado na esquina, esperando os tamborins e os surdos atacarem o samba – estandarte encostado numa parede, esperando aquela que vinha levá-lo...desde que Cecilia disse que já tinha quem segurasse estandarte, ficou uma boataria nas ruas, todo mundo querendo saber quem ia substituir Leilinha – tinha que ser muito boa de samba no pé...
E eis que surge, Dora, esplendorosa, VESTIDA DE VERMELHO DO SAPATO, PASSANDO PELO VESTIDO JUSTO ATÉ A FLOR NO CABELO...
Sua chegada já foi um choque, só a roupa assustou meio mundo, mas o escândalo ficou completo quando Dora, uma chama incandescente ambulante, pegou estandarte, olhou pro mestre dos tamborins e surdos e soltou
“Vamos lá, meu povo... vamos sambar que hoje é carnaval...”
E começou a rodopiar, antes mesmo do primeiro ripinique... e quando o samba atacou,  lá ia Dora, na frente do bloco, toda de vermelho, sambando tudo que tanto sambou entre 4 paredes...
Agora, era vez dela... sem Haroldo pra lhe afrontar, dançou e sambou tudo que sabia e podia...Povo comenta, até hoje, nas ruas daquele subúrbio, que foi o grande desfile do bloco – aquele em Dora rodopiou, toda de vermelho, com estandarte na mão...
Acabado desfile, Cecilia chegou perto de Dora e falou
“Amiga, cê arrebentou..”. e começou a rir – emendando, ainda com riso solto – e eu que pensava que cê tava de luto...”
“E estou... pra defunto como Haroldo, cafajeste, salafrário, galinha, o luto é samba no pé, vestida de vermelho, em sábado de carnaval...”



4 comentários:

Ahtange Ferreira disse...

Eita Simone... Eita Dora...
Adorei amiga você é demais, um dia vou me vestir de Dora rs!rs!
Amo seus textos é de uma simplicidade desconcertante de uma verdade absoluta e... Lindo! Lindo!
Valeu Simone pelo luto da Dora... Que é de tantas outras...

Simone disse...

QUERIDA AHTANGE,
TODAS NÓS TEMOS UM POUCO OU MUITO DE DORA EM NOSSO INTERIOR...
MAS POUCAS TÊM CORAGEM DE SE VESTIR DE VERMELHO...
QUANDO QUISER, VISTA SIM. VERMELHO AQUECE, ANTES DE TUDO, SEU CORAÇÃO - É O PRIMEIRO PASSO PRA SEGURAR ESTANDARTE E SAIR SAMBANDO NA RUA... RSSS
BEIJOS CARINHOSOS E CORAGEM....VC CONSEGUE!!!!!!

Maria Cecília disse...

Bem , eu já nem sei o que dizer...só repetir EXCELENTES textos, eles transmitem amor, fé , alegriam sensibilidade, e tantas coisa mais!
Um beijo transatlântico!

Simone disse...

QUERIDA CECILIA,
MAIS UMA VEZ OBRIGADA POR TODA GENEROSIDADE
MEU AMIOR PREMIO, GRANDE ALEGRIA EM MIM É SABER QUE EXISTEM PESSOAS COMO VOCÊ QUE RESERVAM UM TEMPO PARA LEREM MINHAS "MAL TRAÇADAS LINHAS"...
QUE BOM TOCAR A SENSIBILIDADE DE ALGUÉM...PRÊMIO DOS PRÊMIOS...
BEIJO GRANDE EM SEU CORAÇÃO E NÃO EXISTEM DISTÃNCIAS PRA SEISIBILIDADE E EMOÇÃO...

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