MÃOS
Olhou para a mãos...não mais jovens, com veias aparecendo, meio trêmulas, às vezes, mas grandes companheiras de longa jornada...
Com elas, segurou bichinhos de pelúcia, quando bebê; com elas, comeu a primeira vez em vôo solo, mais se lambuzando que alimentando, mas primeira experiência de independência; com elas penteou e arrumou os cabelos – coisa que fez milhões de vezes durante a vida...
Mãos que seguraram lápis de cor, numa alegria de ver desenhos surgindo, ainda que desajeitados; mãos apreensivas que seguraram o primeiro lápis na escola primária, que responderam perguntas de provas – tantas provas, que nem mais se dava conta – mãos que levantaram, rápidas, para responder perguntas de professores...
Mãos que tocaram piano, vestiram bonecas, prepararam bolos de terra e água comemorando aniversário de cachorro... mãos que seguraram a corda do balanço, firmes, coração batendo forte, com medo de cair, naqueles vôos indo e vindo lá no alto...
Mãos que aprenderam a se maquiar, a escolher roupa para primeiras festas de adolescente, mais uma vez coração batendo forte em saber como seria a festa, quem ia estar lá...
Mãos que pegaram primeiro, segundo, terceiro diploma, que acenaram para ônibus, que se seguraram em balaustre de trem, de madrugada, indo para subúrbio dar aula, mãos que escreveram cartas, abriram cartas de namorado – as mesmas mãos enxugando lágrimas de decepção com término de namoro naquelas linhas de carta...
Mãos que trabalharam, aprenderam a dirigir carro, foram estendidas para receber aliança, mãos que seguraram buquê de noiva, que seguraram um filho pela primeira vez...
Mãos que trocaram fraldas e deram banho, que alimentaram, que seguraram nos primeiros passos daquele ser que crescia, mostrando o caminho, cuidando para não cair...
Mãos que assinaram separação, que trabalharam, produziram, sustentaram, física, emocional e financeiramente... mãos que aplaudiram vitórias e sustentaram nos fracassos...
Mãos, enfim, que viveram.. .e também tiveram as marcas dessa vida desenhadas nas palmas e dorsos...
Mãos que rezaram, que ampararam, que agradeceram - mãos, enfim, que, como companheiras de uma vida, ajudaram a moldar sua vida e outras vidas... algumas vezes acertando, outras tantas errando...mas firmes, presentes...
E agora aqui estão elas... meio cansadas, não querendo mais ter que enxugar lágrimas que teimam, insistem em cair, mãos que buscam e, quase sempre, encontram um vazio para segurar...
Mãos que precisam de apoio para se manter, de outras mãos para guiar no andar, para se alimentar – como lá no princípio, quando antes eram as suas mãos a guiar - agora, são outras a amparar, a nutrir...
Mãos que permaneceram fiéis e assim vão ser até que, fracas, não mais possam produzir, limitando-se a rezar, agradecer e, vez em quando, enxugar uma lágrima que insiste em cair...
Nenhum comentário:
Postar um comentário