TEMPOS
DIFERENTES – SERES IGUAIS
Quando era adolescente
esperava, ansiosa o carteiro chegar. A esperança de receber uma carta de um
namorado sempre me acompanhava, diariamente. Alguns dias se passavam, e a carta
não chegava. Mas, um dia, lá estava o envelope, com aquela letra tão conhecida,
meu nome como destinatária.
Sofregamente, corria pra um
lugar tranquilo, isolado, onde pudesse saborear a carta. Abria o envelope, mãos
rápidas, coração acelerado, expectativa das palavras que leria. E me deparava
com uma única folha, com umas 10 frases, talvez, que muito pouco diziam, mas
nessas poucas palavras encontravam-se as “mágicas” - saudade, te amo, beijo...
Essas 3 palavras isoladas já
compensavam a pobreza do texto, porque mesmo que viessem sozinhas já teriam
cumprido seu papel de aquecer meu coração. Quando se é jovem, nosso nível de
exigência literária fica restrito a umas poucas palavras que representem sentimentos
compartilhados ou sonhados. Nada muito rebuscado – somente as 3 palavras
bastavam.
A espera pelas cartas se
arrastava por dias, o carteiro se tornava o centro de atenção, como se, a
simples presença dele, pudesse iluminar dias cinzentos da distância do amado. A
angústia dessa separação tornava, talvez, a chegada da carta mais preciosa,
mais valiosa.
Havia, nessa época, um
lirismo que acompanhava cada momento de espera, de encontro, de reencontro. Os
lapsos temporais preenchidos por episódicas cartas ou telefonemas transformavam
o “estar juntos” em algo quase mágico – porque eram tempos em que a saudade
ardia no peito, havia tempo para vivenciar determinados sentimentos, emoções –
boas ou ruins.
Hoje, tempos diferentes.
Imediatismo tomando conta de tudo. Mensagens instantâneas jorram em celulares e
redes sociais. As palavras “mágicas” foram substituídas por letras ou símbolos
– não existe mais o lapso temporal que aguça a expectativa dos reencontros.
Tudo está à nossa frente, disponível, bastando apertar algumas teclas, de
computador ou celular.
A cibernética acabou com o
“tempo” de sentir a saudade. Já estão distante as longas esperas pelo carteiro,
a ansiedade em abrir um envelope, o peito apertado pela separação do amado. As
janelas, onde olhávamos a rua, seguidamente, esperando a hora do reencontro, - como
se olhar frequente tivesse o dom de apressar a chegada – essas janelas
acabaram, transformaram-se em “windows”...
Os tempos são diferentes,
mas os sentimentos humanos permanecem. Entretanto a voracidade de toda essa
modernidade aniquilou o lirismo, o romantismo, a espera, a saudade. Toda essa
rapidez em apertar teclas e poder ver o amado através de uma tela de
computador, ao invés de facilitar a aproximação, o que fez, de verdade, foi
tornar as pessoas satisfeitas com a presença distante.
Não mais valorizam-se o
toque de pele, o olhar apaixonado, o respirar no pescoço, as mãos se
encontrando, dedos entrelaçados, remexer no cabelo do outro... Tudo episódico,
imediato, mas tão frio, tão impessoal, tão despido de sentimentos e emoções
fisicamente possívels de serem demonstradas.
Tenho saudades do tempo em
que se podia e se sabia sentir saudade.
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