LEMBRANÇAS
Da infância guardo várias
lembranças, mas as que mais ainda estão presentes são os aromas. A percepção
olfativa parece impregnada em meu cérebro, em meus sentimentos e todas as vezes
em que algo aparece na minha frente que tenha, mesmo que remotamente, um aroma
parecido com aqueles, tudo me volta, vivo, como se pudesse quase vivenciar as
experiências.
O cheiro da “Maria Fumaça”,
um trem que fazia o percurso Rio-Teresópolis... a fumaça que saía da chaminé
daquele antigo trem que se arrastava montanha acima, apitando ( até hoje não
sei a razão do apito, porque a paisagem, embora verde, era deserta ), esse
cheiro entrava nos meus sentidos e ali ficava – na verdade se instalou, porque
o guardo comigo.
A viagem, por si só, já era
uma grande farra, pra mim, menina de uns 4 ou 5 anos, porque ia pendurada na janela, com o vento batendo no
rosto e trazendo o cheiro da lenha tornavam tudo mágico... e depois, havia a
certeza de encontrar Miguel – o velho sinaleiro da estação de Teresópolis – pra
quem eu acenava como louca, agitando meus braços e gritando seu nome !! O
sorriso que ele abria com toda aquela minha agitação era meu presente de
chegada !!
Aromas de lenha queimando me
acompanharam ao longo da infância. Na fazenda de minha tia, onde íamos passar
férias – para loucura de nossas mães, porque 22 crianças juntas, em um único
lugar, leva qualquer um, no mínimo, ao divã de analista...- ali, naquela
imensidão de campo, os aromas se misturavam – o cheiro do fogão a lenha,
funcionando desde cedo, fervendo o leite, o café sendo coado – no velho coador
de pano – o cheiro do curral, com seus cavalos e gado leiteiro, o aroma das
selas dos cavalos que cada um segurava, aquele cheiro de couro impregnando
nosso olfato, misturado ao suor dos cavalos...
O cheiro da floresta, de
verdade, por onde cavalgávamos, desviando de galhos e folhas – nem sempre
conseguindo...- o aroma das flores que insistiam em surgir e crescer sem que
uma semente houvesse sido plantada por mãos humanas...
Minha primeira bicicleta –
vermelha, presente de Natal- aos 4 anos – o cheiro da borracha dos pneus
novos,,, da bicicleta, em si, guardo poucas lembranças, a não ser as pedaladas
dentro de casa, no quintal, ou nas calçadas das ruas, onde se brincava livremente
com as crianças vizinhas. Mas o cheiro da borracha das rodas até hoje me
acompanha.
Em outras ocasiões íamos
passar férias na Ilha do Governador e ali, numa farmácia muito simples – mas
que a meus olhos se transformava em mundo encantado com tantos potes, cremes e
óleos – minha mãe comprava óleo Dagele ( não sei se com dois L ) que, além de
ter uma cor alaranjada, quase terrosa ( fosse hoje e seria suspeitíssima! )
tinha um aroma todo peculiar !!
Era um encantamento o aroma
desse óleo cuja função seria de “proteger” minha pele, mas que pra mim, trazia, com seu cheiro, maravilhas ao meu
olfato. Repetidas vezes me besuntava com aquele líquido viscoso, embora
desnecessário, tão somente para acentuar aquele aroma que, mais uma vez, marcou
minha infância.
Minhas lembranças de
infância, embora triviais, são marcantes em minha vida. Todas muito mais
sensoriais que as vividas de verdade, porque penetraram nos meus sentidos e ali
se alojaram, sem pedir licença, sem que eu percebesse e se aninharam num
recanto remoto da memória, só se mostrando quando, agora adulta, sinto algum
aroma parecido.
Mas nunca será parecido com
o que sentia antes, porque tudo, absolutamente tudo, era acompanhado de um
olhar curioso, da criança que se maravilha com as descobertas que está fazendo
do mundo. A percepção do novo é única e, embora situações, aromas, experiências
possam se repetir, nada será acompanhado do olhar maravilhado da primeira vez.
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