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Simone,


A luz que brilha nos meus olhos vem da minha mente, fervilhante de idéias, pensamentos, sonhos...através de meus dedos e mãos trago vida a esse turbilhão, colocando em palavras o que insiste em gritar dentro de mim...

Cada movimento das árvores bailando ao vento traz encanto e paz ao meu ser; cada pássaro que ouço da minha janela traz música à minha alma...Assim sou eu, dando valor a cada pequena coisa, tornando-a valiosa e importante!



Simone































quinta-feira, 15 de novembro de 2012


LEMBRANÇAS

Da infância guardo várias lembranças, mas as que mais ainda estão presentes são os aromas. A percepção olfativa parece impregnada em meu cérebro, em meus sentimentos e todas as vezes em que algo aparece na minha frente que tenha, mesmo que remotamente, um aroma parecido com aqueles, tudo me volta, vivo, como se pudesse quase vivenciar as experiências.
O cheiro da “Maria Fumaça”, um trem que fazia o percurso Rio-Teresópolis... a fumaça que saía da chaminé daquele antigo trem que se arrastava montanha acima, apitando ( até hoje não sei a razão do apito, porque a paisagem, embora verde, era deserta ), esse cheiro entrava nos meus sentidos e ali ficava – na verdade se instalou, porque o guardo comigo.
A viagem, por si só, já era uma grande farra, pra mim, menina de uns 4 ou 5 anos, porque  ia pendurada na janela, com o vento batendo no rosto e trazendo o cheiro da lenha tornavam tudo mágico... e depois, havia a certeza de encontrar Miguel – o velho sinaleiro da estação de Teresópolis – pra quem eu acenava como louca, agitando meus braços e gritando seu nome !! O sorriso que ele abria com toda aquela minha agitação era meu presente de chegada !!
Aromas de lenha queimando me acompanharam ao longo da infância. Na fazenda de minha tia, onde íamos passar férias – para loucura de nossas mães, porque 22 crianças juntas, em um único lugar, leva qualquer um, no mínimo, ao divã de analista...- ali, naquela imensidão de campo, os aromas se misturavam – o cheiro do fogão a lenha, funcionando desde cedo, fervendo o leite, o café sendo coado – no velho coador de pano – o cheiro do curral, com seus cavalos e gado leiteiro, o aroma das selas dos cavalos que cada um segurava, aquele cheiro de couro impregnando nosso olfato, misturado ao suor dos cavalos...
O cheiro da floresta, de verdade, por onde cavalgávamos, desviando de galhos e folhas – nem sempre conseguindo...- o aroma das flores que insistiam em surgir e crescer sem que uma semente houvesse sido plantada por mãos humanas...
Minha primeira bicicleta – vermelha, presente de Natal- aos 4 anos – o cheiro da borracha dos pneus novos,,, da bicicleta, em si, guardo poucas lembranças, a não ser as pedaladas dentro de casa, no quintal, ou nas calçadas das ruas, onde se brincava livremente com as crianças vizinhas. Mas o cheiro da borracha das rodas até hoje me acompanha.
Em outras ocasiões íamos passar férias na Ilha do Governador e ali, numa farmácia muito simples – mas que a meus olhos se transformava em mundo encantado com tantos potes, cremes e óleos – minha mãe comprava óleo Dagele ( não sei se com dois L ) que, além de ter uma cor alaranjada, quase terrosa ( fosse hoje e seria suspeitíssima! ) tinha um aroma todo peculiar !!
Era um encantamento o aroma desse óleo cuja função seria de “proteger” minha pele, mas que pra mim,  trazia, com seu cheiro, maravilhas ao meu olfato. Repetidas vezes me besuntava com aquele líquido viscoso, embora desnecessário, tão somente para acentuar aquele aroma que, mais uma vez, marcou minha infância.
Minhas lembranças de infância, embora triviais, são marcantes em minha vida. Todas muito mais sensoriais que as vividas de verdade, porque penetraram nos meus sentidos e ali se alojaram, sem pedir licença, sem que eu percebesse e se aninharam num recanto remoto da memória, só se mostrando quando, agora adulta, sinto algum aroma parecido.
Mas nunca será parecido com o que sentia antes, porque tudo, absolutamente tudo, era acompanhado de um olhar curioso, da criança que se maravilha com as descobertas que está fazendo do mundo. A percepção do novo é única e, embora situações, aromas, experiências possam se repetir, nada será acompanhado do olhar maravilhado da primeira vez.


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