ESTRADA
“Uma estrada liga um lugar
chamado Indiferença a outro chamado Afastamento.
Estrada sombria, permanentemente cheia de
nuvens pesadas. Nem a chuva visita essa estrada – as nuvens
permanecem lá em cima, apenas encobrindo o sol, mantendo tudo cinza.
Estrada solitária, que é
percorrida, de vez em quando, por pessoas solitárias, soturnas. A tristeza
margeia essa estrada – nada de árvores, pássaros cantando ao seu redor...
Restos de árvores, sem folhas, mostrando que nada de bonito ali floresce.
Quem sai desse lugar
tristonho, chamado Indiferença só encontra essa estrada para caminhar... e é
estreita, tortuosa, cheia de altos e baixos... Repousar, somente nas laterais,
mas o chão é áspero, frio, assim como o vento que sopra todo o tempo...
O caminhante, apesar da
desolação, continua em seu caminho – sabendo exatamente que, ao final, entrará
em Afastamento.
Algumas vezes esse caminhante reconhece, em Afastamento, algo de familiar – uma sensação de já ter estado por ali... e talvez tenha estado, mesmo... afinal, ali só se chega por essa estrada... então, quem sai de Indiferença sempre vai chegar, pela estrada cinza, a Afastamento.
Algumas vezes esse caminhante reconhece, em Afastamento, algo de familiar – uma sensação de já ter estado por ali... e talvez tenha estado, mesmo... afinal, ali só se chega por essa estrada... então, quem sai de Indiferença sempre vai chegar, pela estrada cinza, a Afastamento.
Lugar estranho – uma grande
praça, somente – larga demais que
deve ser cruzada a passos lentos, para não se cansar e recuperar o fôlego
roubado pela estrada. Porque a respiração fica difícil, ao longo dessa estrada.
Apertos no coração, angústia, solidão invadem o caminhante durante todo o percurso.
Só lhe resta pensar em tudo que deixou em Indiferença. Mas isso requer esforço, também, porque ninguém consegue explicar – nem o caminhante se lembra – como chegou a esse local, Indiferença.
Apertos no coração, angústia, solidão invadem o caminhante durante todo o percurso.
Só lhe resta pensar em tudo que deixou em Indiferença. Mas isso requer esforço, também, porque ninguém consegue explicar – nem o caminhante se lembra – como chegou a esse local, Indiferença.
O que sabe é que, um dia,
resolveu dar o primeiro passo em direção a Afastamento, mesmo sabendo da
estrada soturna, cheia de nuvens cinza.
Afastamento é um lugar
estranho... o caminhante tenta olhar para o outro lado da praça – em sua
imensidão, seus olhos se perdem, como se estivesse diante de um grande
oceano...
Como já esteve em
Afastamento antes , sabe que deve caminhar, caminhar muito, sentando pra
descansar, de vez em quando. Muitos dias passarão, nesse caminhar.
No princípio, por um bom
trecho, na verdade, Afastamento é coberto pelas nuvens da estrada, o mesmo
vento frio sopra, entrando nos ossos, trazendo arrepios... outros caminhantes
também passam...mas o silêncio é quase palpável... nada se ouve, nenhum
suspiro, sequer um gemido...
Como uma grande conformação coletiva,
passam sem olhar um para outro – os vários caminhantes – cada um olha para seu
próprio interior, como se buscasse respostas a perguntas que insistem em gritar
em sua cabeça, em seu coração...
E vagam por ali, a cada vez
tentando ir se aproximando daquele ainda não visível outro lado da gigantesca
praça...
Mas, embora não visível, caminham, porque sabem que lá, bem longe, está uma outra estrada, que sai de Afastamento e conduz a outro lugar, chamado Amor-Próprio...”
Mas, embora não visível, caminham, porque sabem que lá, bem longe, está uma outra estrada, que sai de Afastamento e conduz a outro lugar, chamado Amor-Próprio...”
Simone de Faria
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