REVELAÇÕES
O ônibus avançava,
lentamente, pelo caminho. O balanço que provocava sempre fazia a mulher ficar
sonolenta. Não hoje. Hoje ela olhava o marido sentado ao seu lado, segurando uma
revista, olhava a paisagem ao redor –
tudo tão conhecido, tão familiar, no entanto tudo hoje era novo. Hoje. Ela era
outra mulher.
Havia uma desconhecida que
gritava dentro dela. Uma desconhecida que tinha seus braços, pernas, cabelo,
roupas, mas cujos sentimentos e emoções ela desconhecia. Havia uma desconhecida
dentro dela que sentia raiva, nojo, decepção até então emoções desconhecidas
para ela. Não mais. Não hoje.
A verdade, até então oculta,
dissimulada, encoberta, em um segundo surgiu diante dos seus olhos, chicoteando
seu rosto, derrubando tudo que, até então, ela acreditava. Hoje ela conheceu o
medo, a vergonha, a raiva. Coisas feias que cresciam dentro dela e
transtornavam seu interior.
A mulher que passou a
habitar nela uivava de raiva, se dilacerava de horror, rasgava suas entranhas,
com suas unhas invisíveis mas que destruíam tanto como se verdadeiras fossem.
Aquele ser desconhecido –
que até então fora seu marido, seu homem – tornou-se objeto de nojo, de
repugnância ao seu lado. Hoje ela viu a verdade sobre ele. Hoje todos os véus
desabaram – todos os artifícios que ele usara, até então, desde o princípio,
desmontaram na frente dela – somente dela. E o nojo por ele se instalou em seu
interior, junto com a raiva.
A mulher lembrou como ela e
aquele ser abjeto se conheceram, casaram e começaram a construir uma vida.
Lembrou como ele era, no princípio – amoroso, cuidadoso, risonho. A vida era
risonha e rósea.
Hoje não. Hoje o verdadeiro
ser apareceu diante de seus olhos. Mas ele de nada sabia. Não sabia que seus
véus tinham desaparecido, não sabia que seus segredos evaporaram como fumaça,
expostos perante os olhos dela – olhos de horror, de nojo. A mulher dentro dela
berrava se dilacerando – uma mulher nova que a fazia outra, sabendo agora o que
era ter raiva, rancor, ódio. A mulher olhava aquele homem, sentado a seu lado,
e tinha impulsos de jogar na cara dele todo nojo, todo horror, toda repugnância
que sentia.
Hoje ela passou a conhecer,
através dessa nova mulher na qual ela se transformou, o que é ter desprezo, ter
vontade de esmagar alguém como se esmaga a cabeça de uma serpente. Porque ele
nada mais era que uma serpente peçonhenta que se alimentou todo esse tempo da
sinceridade dela, do amor que ela sentia, pela primeira vez na vida.
Hoje, caminhando a esmo, num
beco deserto, toda a verdade foi jogada na cara dela. Seu marido, seu homem e
Davi. Escondidos de todos ela ouviu Davi dizendo ser amante do corpo dele e o
viu beijando apaixonadamente a boca de Davi.
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