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Simone,


A luz que brilha nos meus olhos vem da minha mente, fervilhante de idéias, pensamentos, sonhos...através de meus dedos e mãos trago vida a esse turbilhão, colocando em palavras o que insiste em gritar dentro de mim...

Cada movimento das árvores bailando ao vento traz encanto e paz ao meu ser; cada pássaro que ouço da minha janela traz música à minha alma...Assim sou eu, dando valor a cada pequena coisa, tornando-a valiosa e importante!



Simone































domingo, 13 de fevereiro de 2011

A GARRAFA

Genésio Raimundo descia as ladeiras silenciosas naquele final de noite, início de manhã. Seus passos ressoavam nos paralelepípedos desencontrados. Terno amassado, sapato duas cores, gravata torta depois de  tanta agarração com Luzinete “Língua de Veludo”. Pose de lorde, cabelo desgrenhado, mas a gomalina ainda era visível.
Sorria sozinho, lembrando do fogo de Luzinete – não era à toa que tinha aquele apelido – Língua de Veludo – eita menina-mulher sabida nas artes da boca... Raimundo, Mundico, nunca encontrou outra igual em todo esse mundo de meu Deus por onde viajou...
E ele viajou – conhecia todos os bordéis e casas de putas, da Bahia até Maranhão – não só das capitais, do interior também; caixeiro viajante, rodava estrada com os produtos e seu apetite de fogo por mulher da vida. De dia vendia mercadoria, negociava, barganhava desconto pra clientes, comerciantes fixos ou gente de rua que vinha comprar.
 Mas de noite...  ah!,  de noite se esbaldava na bebida e com as mulheres – cada lugar tinha uma certa, preferida, que largava qualquer cliente pra ficar com Mundico – passavam a noite num fogo só, cada quenga querendo mostrar maior maestria nas artes da sem-vergonhice... As do interior, então, eram as mais fogosas – sabiam que Mundico andava lá pelas capitais e não podiam  ficar  pra trás das putas de capital.
Algumas pediam a Mundico pra contar como se vestiam e se arrumavam as meretrizes de cidade grande. Nada dava mais prazer a ele que contar detalhes das quengas de melhor nível pras outras, aquelas de baixo meretrício, dos becos e vielas do interior.
Naquelas horas que recuperava fôlego, depois de cavalgadas memoráveis com aquela fêmea, se refastelava na cama, charuto na mão – homem de gosto refinado, não se passava pra cigarro de palha – e se punha a contar todos os detalhes para aquela mulher deitada com ele, que ouvia tudo, de olho arregalado, sonhando... Contar esses detalhes, a lembrança das outras, excitava Mundico e logo, logo estava pronto pra nova cavalgada, exigente com a puta que tentava ( agora que conhecia as artes do amor e da sem-vergonhice de cidade grande ) se igualar ou até superar as rivais. E esses eram os melhores momentos de loucura de Mundico.
Só bebia conhaque. Um dia leu num jornal reportagem da morte de um figurão, dono de terras, político – morreu assassinado. O caso teve grande impacto na sociedade...seria crime político ou passional? Porque o tal figurão era dado a ter casos com mulheres casadas... Aí, vai que um marido mais ciumento resolveu lavar a honra com sangue do figurão?
Os jornais faziam estardalhaço todos os dias. Primeira página, cada vez com um lance mais apimentado e misterioso. Mundico lia tudo, mas seu único interesse foi no primeiro dia – o corpo foi encontrado com  3 balas no peito e um copo de conhaque ao lado. Conhaque. Bebida de figurão, digno de sair em primeira página de jornal...
Desse dia em diante, pra Mundico, só conhaque. A qualquer hora, com o calor que estivesse... Naquele agreste era difícil encontrar bebida pra paladar  tão refinado como o dele. Passou a carregar sua própria garrafa que colocava em cima da mesa, numa exibição orgulhosa de bom gosto e dinheiro.
Chegou à pensão onde alugava quarto, freguês antigo, sempre recebido com alegria pela gerente – pagava em dia, não criava briga nem confusão e ainda encontrava tempo pra contar algumas histórias picantes para Coralina, a gerente.
Nos finais de tarde, acabado o horário das vendas e antes de sair pra boemia e esbórnia, Mundico voltava à pensão, tomava banho pra se preparar para o que chamava “minhas horas de macho”...Nesse intervalo, sentava com Coralina e conversa corria solta, ela às gargalhadas com as sem-vergonhices que ele falava, se revirando toda, olhos e corpo em risadas sacudidas.
Matrona cheia de corpo, Mundico imaginava que tivesse sido puta em algum bordel no interior; depois veio pra capital e, com estágio na cafetinagem ( não tinha mais idade, viço ou fôlego pra receber e dar prazer pra homem ) conseguiu juntar dinheiro e comprou pensão – com vagas para cavalheiros...
Ali hóspede não levava rapariga – queria manter respeito da casa – mas a pose de “gerente de hotel para cavalheiros” não escondia passado de camas com variados machos...Fogosa era até hoje, olhos brilhavam com assuntos e casos de trepação... Diziam que era fixa de Quinzinho da farmácia, casado com mulher pálida, sempre com véu de missa e terço na mão, andava apressada  de olhos baixos. Um amuleto contra luxúria... Diziam – povo fala – mas nunca ninguém viu Quinzinho entrando ou saindo da cama de Coralina...
Mundico chegou no seu quarto, arrancou as roupas e meio bêbado de conhaque e sono, se jogou na cama. Ficava ali uns 2 ou 3 dias e tinha que aproveitar...lembrando de Luzinete e suas artes linguais, dormiu com cara de satisfação.
Acordou tempos depois com uma correria, gritos de desespero. De cueca, saiu pelo corredor pra se deparar com Coralina aos berros, arrancando os cabelos, lavada em lágrimas! Com muito custo, Mundico conseguiu entender que alguém na zona das putas tinha sido esfaqueada – ’15 facadas, Mundico, 15 facadas!’ Coralina repetia aos gritos de desespero...mas não dizia quem era a infeliz vítima...
Vestiu uma roupa qualquer e foi pra rua saber mais notícias – pessoas passavam espantadas, grupos de 2 ou 3 em esquinas – assunto era um só – as 15 facadas... Conversa com um, pergunta a outro, foi andando e chegou na zona dos bordéis e baixo meretrício – uma confusão só!
Mundico encontrou Nalvinha enrolada num penhoar de chita e lágrimas... Agarrou o homem pela camisa e berrava na cara dele ’15 facadas, Mundico, 15 facadas!’- as palavras jorravam daquela boca escancarada de horror, enquanto os olhos reviravam em agonia e dor – ‘sangue por todo lado, a tadinha toda furada, mais parece um retalho cheio de buraco...está lá, estirada no chão, ainda quentinha, nem esfriou corpo...’
“Mas quem levou as facadas? fala Nalvinha...”
“Oxente, então cê não sabe? pois num foi Luzinete...”
Luzinete, Língua de Veludo, agora calada pra sempre – apagado seu fogo, acabada sua alegria na cama, seus olhos virados na hora do prazer – arrancada sua juventude com 15 facadas...
Aconteceu que Honório, peão de agreste, chegou bem de manhãzinha na casa de Nalvinha e logo mandou chamar Luzinete – chamego antigo por ela, acostumado com suas malícias e delícias. Cansado da lida no campo, quando folgava vinha até cidade desafogar suas urgências e necessidades com Luzinete...Ah! menina sabida, conhecia as manhas e gostos de Honório e não se fazia de rogada... Ele se derretia todo nos braços, pernas e boca daquela guria, magra que nem um espeto, nem bonita era, mas fogaréu na cama...
Um dia, Honório propôs montar casa pra ela, com todo conforto – cama de casal, geladeira, fogão, televisão pra ver as novelas que ela adorava.. Luzinete se riu e disse que ia pensar... Conversa mais doida, essa de Honório... de repente, virar mulher de um homem só, com casa montada... mais um pouco ia estar freqüentando grupo de beatas de igreja! Ela riu de novo... Ah! esse Honório...
E Honório chegou e mandou chamar Luzinete – ela veio, meio com sono, noite nos braços de Mundico arriava qualquer mulher, mesmo as mais experientes... Mas veio, cheia de graça, sorriso aberto, se chegou pra Honório, pras suas urgências e necessidades...
Depois, espojado na cama, saciado, Honório viu uma garrafa de conhaque quase cheia...Levantou da cama, destampou e bebeu no gargalo mesmo... coisa fina, descia macio, quente...bebia e se fartava...
“Beba tudo, não, homem de Deus...essa garrafa é de Mundico...esqueceu aqui...”
“Se esqueceu, tá perdida – é de quem achar e eu achei - agora é minha!”
Luzinete se ria do descaramento de Honório, bebendo daquele gargalo, se adonando da bebida fina de Mundico...
E com a garrafa quase vazia, esparramado na cama, Luzinete enroscada no corpo, Honório perguntou, com voz arrastada de conhaque, se tinha pensado na proposta de casa montada, de viver pra um homem só... Luzinete, se rindo, disse:
“Olhe, meu nego, fico muito vaidosa com sua proposta, num sabe? mas posso aceitar, não – gosto de variação de homem na cama comigo... quero ficar amarrada num só...ainda não...quem sabe mais tarde, né? vamos continuar assim, meu nego, você vem, lhe dou chamego, mas dou pra outros também...”
Honório olhou pra ela, tudo turvo, envolto em conhaque e soltou:
“Pois se não vai ser só minha, de mais ninguém...” E antes que ela pudesse piscar, puxou peixeira do lado da cama e enfiou 15 vezes naquele corpo magrelo...
Depois, desatou a chorar e berrar, chamando atenção de Nalvinha e das outras meninas...alvoroço, correria, grito, choro, consumição...
Mundico entrou no quarto e viu Luzinete, numa poça de sangue e, na mesa do lado da cama, quase vazia, sua garrafa de conhaque...




6 comentários:

Maria Cecília disse...

Olá Simone! obrigada peçps seus comentários no meu blogue, é muito generosa!
eu continúo gostando da forma tão natural como vocé escreve e descreve ...um beijinho
Au revoir, Simone

Simone disse...

OLÁ CECILIA,
AGRADEÇO A SUA GENTILEZA... MAS NA VERDADE VC ME FEZ SENTIR AROMA E CALOR NO SEU TEXTO...
TIVE A MESMA SENSAÇÃO ( E FIQUEI MUITO IMPRESIONADA ) QUANDO LI O CAÇADOR DE PIPAS...PARECIA SENTIR O CALOR E O VENTO DO AFEGANISTÃO - DE VERDADE
NADA DE AU REVOIR...PREFIRO Á BIENTÔT...
BEIJINHO

Rubo Medina disse...

Um texto interessante que retrata costumes que nós da capital, vivenciamos de maneira diferente. Tanto que a Luzinete - aliás uma parte bem interessante do texto essa - se mostrava interessada na maneira que "as outras" se comportavam...
Final surpreendente e a ironia dosada na medida: a garafa ao lado... Gostei.
Beijos.

Simone disse...

OLÁ RUBO!!
Q ALEGRIA TER RECEBIDO VC AQUI TÃO RÁPIDO E MUITO OBRIGADA PELO COMENTÁRIO!! ESSA LUZINETE...RSSS BEIJOS

Ahtange Ferreira disse...

Oi Simone, mantendo delicioso contato.
Gosto da forma que escreve e a Luzinete é uma figurinha.
Bjo amiga.

Simone disse...

Oi, Ahtange,
obrigada pelo comentário. a Luzinete é MESMO uma figurinha,,,,tem via própria....
que bomvc gostou
adoro esse contato sempre bem vindo
beijo grande.

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